Se um dia a humanidade morrer de sede e sumir do mapa por falta de água, my dearly friend, não vai ser por falta de aviso. Ah, não foi!
Faz pelo menos meio século que o assunto anda em voga aqui e no mundo. No universo pop brasileiro, então, desde 1981 o tema era destaque no hino ecológico de Guilherme Arantes, no Festival MPB Shell da Rede Globo.
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Nota da Redação I: Ah, a ironia. Saca só o nome do patrocinador.
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🎶 “Terra, planeta água…” 🎶
Agora, pegue esse spoiler. De lá para cá, a situação piorou. E piorou beeem tanto em Terra Brasilis como no planeta Terra…
O alerta mais recente ainda está fresquinho como água de fonte. E é de arrepiar os cabelos em dia de tempestade – sim, aquele efeito “instagramável” de cargas elétricas buscando uma conexão entre o solo e às nuvens, usando o seu corpo como condutor.
Receba: a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a tal da Organização das Nações Unidas (ONU), aquela instituiçãozinha “démodé, toujours essentielle”, soltou no final de janeiro um relatório em que dá o recado: “o mundo entrou na era da falência global da água”. F-a-l-ê-n-c-i-a!
O termo é forte e bem conhecido no condado da Faria Lima, que dispensa maiores apresentações, mas em todo caso… É aquela região de São Paulo (SP), onde tem de tudo. Desde o lendário Shopping Iguatemi, passando por boutiques de jóias e grifes de roupas caríssimas até bancos e ex-bancos.
Então, chega mais, my friend, e vamos ver no detalhe o que isso quer dizer.
No relatório da ONU, a regra é clara. Há rios, lagos, aquíferos e geleiras danificadas além do limite, sem perspectiva de recuperação total. Zonas úmidas? Tem algumas que foram simplesmente limadas do planeta. E o resultado é um esgotamento de reservas de longo prazo. Um manancial de estragos que rende um Amazonas, para que você tenha ideia do tamanho do problema à mesa.
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 Barco encalhado em um rio seco da Amazônia. |
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Mas escute só o que diz o professor Kaveh Madani, autor principal do estudo: “Muitas regiões estão vivendo além de sua capacidade hídrica, e muitos sistemas de água essenciais já estão falidos”. Captou? One more time: f-a-l-i-d-o-s!
Como diria Lulu Santos: 🎶“Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia” 🎶
“Ahhh, mas pera lá! Não é assim também, não. Exagero, mano! Dois terços da terra são cobertos de água!”, diria a voz do inconsciente coletivo da humanidade.
Verdade… Mas há sempre um “mas”. A água doce é beeeem mais rara. Só 2,5% do total. Se ainda parece muito, é bom lembrar que 69% estão presos em áreas de difícil acesso, como geleiras. E os aquíferos concentram outros 30%. Ou seja, fazendo àquela matemática de ensino fundamental, só 1% forma rios e lagos.
É! É água de beber, camarada, com o perdão da licença poética.
“Ah, não eu confio na ONU”, surge a dúvida no córtex pré-frontal do cérebro do pensamento coletivo humano. Então, péra… Puxe a cadeira e sente-se, porque vamos dar uma boa olhada na numeralha que temos em mãos.
- Metade das pessoas que caminham hoje sobre a Terra passa pelo menos um mês do ano sem saber se vai ter água na torneira. UM MÊS. Estamos falando de 4 bilhões de pessoas. B-i-l-h-õ-e-s. O dado é do Banco Mundial. Imagine que delícia não seria a falta de um banho matinal no seu workflow?!?
- A água hoje é protagonista absoluta das catástrofes naturais. Estima-se que 70% das mortes causadas por elas são por excesso ou pela falta de água, em enchentes e secas. E olha que não é pouca catástrofe que temos visto. A fonte é a mesma da anterior, o Banco Mundial.
- Mais uma, da mesma lavra. Nos últimos 50 anos, secamos boa parte de nossa “poupança” de emergência em água no solo e em aquíferos. Algo como 27 trilhões de metros cúbicos. Considerando que uma piscina olímpica tem cerca de 2,5 mil metros cúbicos, estamos falando de uma piscina olímpica e meia cheia para cada habitante do planeta. Praticamente, um ultimate beach club global. Legal, não? Não!
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 Geleira em colapso. |
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“Com o valor econômico da água estimado em US$ 58 trilhões — o equivalente a cerca de 60% do PIB global — a sua importância crítica e a escala do desafio não podem ser subestimadas”, diz outro estudo, do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês).
Traduzindo o mindset em duas grandes máximas do mercado, “não existe almoço grátis”. “Alguém vai pagar a conta”, my friend!
Mas pode piorar. E muito, porque a conta está chegando. E ela vem alta.
Mesmo no Brasil, um dos países com maior abundância de água doce do mundo, importantes estados agrícolas, como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e Goiás, enfrentaram em anos recentes as piores secas em quase um século. Só na última década, desastres impulsionados pela estiagem causaram prejuízos superiores a R$ 730 bilhões aos produtores e ao país, segundo a Confederação Nacional de Municípios (CNM).
Só de imaginar, a boca seca.
Tá faltando “ownership” (“atitude de dono’, pra ti que não fala inglês”), já diria um empreendedor mais entusiasmado. Mas não se deve ter ilusões, como afirma o relatório da WEF: “nenhuma empresa ou governo é capaz de construir resiliência hídrica isoladamente”.
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A boa notícia, em meio ao cenário desolador, é que uma série de novas tecnologias, modelos de negócio e insights baseados em dados vêm permitindo a adoção, em larga escala, de soluções que tornam o uso da água muito mais eficiente e racional. E isso em algumas das indústrias que mais utilizam o recurso no mundo.
O agronegócio, por exemplo. Globalmente, a atividade agrícola é a que mais consome água, com uma fatia de 72% do total – em seguida, vêm a indústria, com 15% e, logo atrás, o consumo doméstico nas cidades, com 13%. Hoje, muitos produtores já aproveitam melhor o recurso, com auxílio de ferramentas de IA, que fazem com que cada litro renda uma quantidade muito maior de alimentos do que renderia sem o auxílio da tecnologia.
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“Não se pode desperdiçar água para ter ganhos pequenos. Sustentabilidade hoje é sinônimo de eficiência matemática”, afirma Éder Giglioti, CEO da Smartbreeder, agtech brasileira que se tornou referência em IA aplicada à agricultura, especialmente na cultura de cana-de-açúcar.
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 Éder Giglioti, CEO da Smartbreeder. (Foto: Divulgação) |
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Giglioti explica que a água é um insumo tão importante que, quando suplementada, por meio da irrigação, de forma adequada, a produção pode aumentar em 30% ou 40%, no caso da cana-de-açúcar. Em soja e algodão, os ganhos podem alcançar incríveis 50%.
50% é coisa, heim?
Usar a água de “forma adequada”, no caso, é ajustar tudo que for possível para que ela renda o máximo. Não é só avaliar qual o regime hídrico ideal a partir de dois ou três parâmetros, como da forma tradicional, mas de centenas, explica. Por isso, o que a Smartbreeder tem feito, diz Giglioti, é usar a tecnologia para modelar a importância da água para cada cultura, em função de mais de 700 outros fatores envolvidos em diferentes etapas da produção, do preparo do solo e do plantio ao controle de pragas e doenças.
“Se eu tiver chuva, mas não otimizar o resto, é como se estivesse desperdiçando água”, afirma o CEO da Smartbreeder.
A empresa, que hoje está presente em mais de 4 milhões de hectares de fazendas de cana-de-açúcar no País, e começa a se expandir também para as culturas de soja, milho, algodão, citrus e florestal, lançou recentemente uma nova solução, que apresentou ganhos entre 25% e 35%, em mais de dois milhões de hectares cultivados em safras piloto. O aumento é resultado da recomendação de um pacote ideal de manejo para cada talhão, o que inclui o regime hídrico, diz o empresário, que tem como meta quadruplicar a receita da Smartbreeder, nos próximos cinco anos, usando um modelo de negócio com gatilhos de remuneração baseados na redução de custos e ganhos de produtividade com suas soluções.
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 Plantação de milho em área rural. |
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A questão é que esse tipo de tecnologia ainda é novidade, e novidades costumam levar algum tempo para encontrar terreno fértil. Na avaliação de Giglioti, o produtor rural já se preocupa com o uso mais racional da água. Mas a falta de informação sobre como fazer isso da melhor forma ainda trava a adoção mais rápida de novas tecnologias, mais sustentáveis. “É algo ainda novo. Em anos recentes, com o Chat GPT e outras ferramentas similares, houve uma maior socialização do potencial da IA e muitos estão começando a entender melhor isso. Já foi um paradigma maior, mas ainda é um paradigma”, explica.
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Algo semelhante se dá em outras áreas do agronegócio. A água também é um dos insumos mais importantes na produção leiteira. Além de ser consumida pelas vacas, é usada na limpeza das salas de ordenha e no resfriamento, para controlar a temperatura do ambiente, um dos fatores mais críticos para a produtividade dos animais.
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“Temos cada vez mais dias e meses quentes, ao longo do ano. E uma vaca em estresse térmico pode ter uma redução de 30% na produção de leite”, diz Thiago Martins, CEO da Cowmed, agritech brasileira pioneira no uso de IoT (internet das coisas) e IA para monitorar a saúde e o bem-estar do rebanho em tempo real.
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 Thiago Martins, CEO da Cowmed. (Foto: Divulgação) |
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O carro-chefe da Cowmed, diz Martins, ainda são soluções para reprodução e sanidade, como identificar vacas no cio ou animais doentes, em um rebanho formado por mais de 100 mil animais, em 1,3 mil fazendas, atualmente. Mas, desde o ano passado principalmente, cresce a procura também por soluções de nutrição que envolvem o uso e reúso de água, de forma mais racional, para conforto térmico, conta o empresário.
De forma resumida, o sistema funciona assim. Coleiras eletrônicas e outros sensores instalados nas fazendas permitem monitorar indicadores como a ofegação, ruminação e o consumo das vacas, bem como a temperatura e a umidade dentro do galpão. Com base nesse conjunto de informações, trabalhadas na IA, a Cowmed orienta o produtor sobre os horários em que os animais estão passando por maior desafio térmico, quais os horários em que estão indo comer no cocho, os horários em que tem que ligar o banho e por quanto tempo, por exemplo, para que possam gastar menos água e produzir mais.
“Com isso, ele economiza 20% a 30%, no sistema de resfriamento. E ganha os mesmos 20% a 30%, em produtividade”, diz Martins. “Porque o produtor não tem disponibilidade de água para gastar mais, nem de energia, deixando o sistema ligado 24 horas”.
Com o aumento da demanda, a empresa cresceu 50%, no ano passado, e espera crescer outros 50%, neste ano.
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A competitividade gerada pelo uso intensivo de tecnologia se impõe na produção de frangos, na qual, da mesma forma, o uso mais racional da água é uma preocupação crescente, afirma Anderson Nascimento, CEO e fundador da Agrisolus, que já foi definida como o “Big Brother do frango”.
A Agrisolus usa IoT e IA para transformar o consumo de água em um indicador estratégico de gestão em granjas e frigoríficos. Para isso, instala sensores que monitoram o consumo, temperatura e qualidade da água em tempo real, lote a lote e aviário a aviário – atualmente, a empresa recebe cerca de 10 mil registros diários desses equipamentos. Os dados são cruzados com informações de ambiência, ração, idade das aves e desempenho zootécnico. A partir daí, são identificados desvios de padrão, vazamentos, problemas de regulagem de bebedouros ou até sinais precoces de desafio sanitário.
Nascimento explica que, em termos diretos, a água costuma representar um percentual relativamente pequeno dentro do custo total de produção. Mas o impacto indireto é muito maior. A água está diretamente ligada ao consumo de ração (principal custo do lote), ao ganho de peso, à conversão alimentar e à qualidade de cama. Em cenários de escassez hídrica, os efeitos sobre os animais podem ser dramáticos, com queda no consumo, estresse térmico, redução de ganho de peso e maior mortalidade.
“O produtor moderno entende que água não é apenas um recurso natural — é um indicador direto de eficiência produtiva”, diz o empresário. “Quem mede e controla bem o consumo de água toma decisões mais rápidas, reduz perdas e aumenta previsibilidade de resultado. Para frigoríficos e integrações maiores, a tecnologia também gera padronização e comparabilidade entre unidades, permitindo identificar melhores práticas e elevar o nível médio de eficiência hídrica da operação como um todo.”
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 Anderson Nascimento, CEO e fundador da Agrisolus. (Foto: Divulgação) |
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Segundo Nascimento, o uso mais eficiente da água já é uma alavanca relevante do crescimento da empresa, que vêm se expandindo, em média, 55% ao ano, desde 2020, e espera chegar a 2 mil granjas monitoradas, em 2026. Hoje, suas soluções já cobrem cerca de 30 milhões de frangos a cada ciclo produtivo.
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A moda é outro setor intensivo no uso de água. Entre os mais beberrões, só perde para agricultura e siderurgia. Para se produzir uma calça jeans, por exemplo, são necessários 10.850 litros de água. Um lençol de cama de solteiro demanda 9.750 litros e, uma simples camiseta, 2.720 litros de água, segundo um estudo do Institute for Water Education, ligado à UNESCO, o braço da ONU para Ciência, Educação e Cultura. Mas a indústria da moda também vêm se beneficiando das novas tecnologias e modelos de negócios.
Um dos principais usos da água é na preparação do algodão. A fibra da planta precisa ter sua cutícula natural removida para permitir a penetração dos corantes. Tradicionalmente, isso exige um “coquetel” de soda cáustica e detergentes, eliminados posteriormente em sucessivos e exaustivos banhos de lavagem. É nesse gargalo que atua a Akmey, empresa catarinense que desde 2003 utiliza a biotecnologia para tornar o setor menos poluente.
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A companhia desenvolve soluções baseadas em enzimas — proteínas que quebram moléculas específicas no tecido — que dispensam o uso de químicos agressivos e reduzem drasticamente o descarte de efluentes. “Com a nossa tecnologia, você lava apenas uma vez e já pode iniciar o tingimento. Não são necessários novos banhos como no processo tradicional”, explica Alexandre Cezar Aragão, diretor e cofundador da Akmey.
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 Alexandre Cezar Aragão, diretor e cofundador da Akmey. (Foto: Divulgação) |
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A inovação mais recente da empresa, desenvolvida a partir de 2015 e batizada de Sustendye, foca no tingimento. É uma nanotecnologia que encapsula os corantes, aumentando sua eficiência e permitindo reduzir em até 80% o uso de sais no processo, com impacto direto na redução de rejeitos no tratamento de efluentes e economia no uso de sais e de energia.
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