10 fevereiro 2026 - 9 min de leitura

É deep, é bio, é tech, é KPTL

KPTL

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Renato Ramalho é Chief-Executive Officer da KPTL. Gestora brasileira, com ativos que superam hoje a casa do bilhão de reais para o total de receitas das suas mais de 70 investidas, a casa de gestão de fundos de venture capital começa a jogar seus dados para 2026. E enxerga a vertical de clima em ascensão, aposta em tendências de inovação em ciência, mas sabe que a cautela vai vestir a camisa dez, pelo menos, no primeiro semestre do próximo ano. Afinal, os juros básicos da economia no Brasil ainda estão na estratosfera.

Nesse bate-papo, que só saiu do papel porque a inovação tem cumprindo a sua função de aproximar o ser humano onde quer que ele esteja, uma vez que Ramalho estava em Tel Aviv, Israel, participando de um evento no país na segunda semana de dezembro, e se conectou com São Paulo, Brasil, o CEO da KPTL nos conta que colheu bons insights. A seguir, os principais trechos.

Renato Ramalho, CEO da KPTL. (Foto: Gil Silva)

1) A KPTL deverá chegar ao fim de 2025, com uma receita bruta do portfólio sob gestão da ordem de R$ 1,2 bilhão. O que isso significa para a gestora, especialmente em um ano que os juros básicos da economia no País estiveram acima dos 14%?

Juros altos, em tese, economia menos dinâmica. Em contrapartida, o portfólio de KPTL, posicionado basicamente em business to business (B2B), cresceu mais de 30%, passando de R$ 1,2 bilhão em receita bruta. Eu genuinamente acredito que a resposta para esse crescimento está nas vantagens, nos benefícios e no dinamismo – apesar dos juros -, que as empresas de tecnologia são capazes de empregar com soluções frente às missões críticas em clientes. Então, é como se a demanda por esse tipo de tecnologia meio que ficasse apartada do universo dos juros, da política, das eleições, etc. Porque não contratar ou mesmo desplugar essas soluções significa diminuir sua competitividade, capacidade de crescimento… E no fim pode te custar a sua existência.

2) Um dos pontos que mais chamam a atenção, quando se olha para o ecossistema de empresas geridas pelos fundos de venture capital, é o aumento no grau de maturidade. Por exemplo, em 2024, 61% do portfólio da KPTL faturava até R$ 10 milhões por ano; neste ano, esse indicador caiu para 51%. E na outra ponta, no ano passado, apenas 4% tinham receita anual superior a R$ 50 milhões; em 2025, mais que dobrou, alcançando 10%, Quais foram as razões que promoveram essa transformação?

Temos acertado bastante em antecipar tendências. Tendências tecnológicas como em Deeptech e Biotech no Fundo Criatec I, através da Nanovetores, RPH, Bug e Imeve, ou mesmo através do Fundo de Inovação em Meio Ambiente (FIMA) com investimento em companhias que hoje se destacam, como Lamiecco, Smartbreeder e Akmey. Todo esse movimento nos possibilitou, com o desempenho consistente das investidas, realizar o que nós chamamos de “exits”. Vendemos nossa participação em bons momentos e isso contribui para o cenário. Porque hoje o clima é uma tendência, mas não era quando FIMA foi criado há 10 anos. E essa ‘tese’ se espalha pelos nossos olhares na direção de GovTech, Agtech, entre outras. Essas antecipações mostram a força e a coerência daquilo que pensamos. Até porque é preciso ‘ler’ um pouco dessa capacidade de alguns setores econômicos do Brasil e entender quais têm capacidade de produzir boas inovações. Essa é uma reflexão que está no DNA da KPTL.

3) As duas questões acima tratam de amadurecimento e crescimento da carteira de investidas, bem como da gestora em si. Qual é o cenário que a KPTL enxerga para 2026 para seu ecossistema: chegou a hora de sell-out?

Sinceramente, chegou o momento de a KPTL começar a encerrar os primeiros ciclos de investimento. Fazer gestão de um fundo de Venture Capital é uma jornada de longo prazo, e nós, agora, depois de quase 20 anos de KPTL, estamos chegando ao momento de realmente começar a entregar o encerramento dos primeiros fundos. Nos últimos 30 meses, por exemplo, vendemos oito empresas, proporcionando boa rentabilidade aos fundos. Nessa esteira, devemos ser os primeiros gestores a entregar ciclos completos. Dependemos de mercado para vender bem as empresas, claro, mas temos que fazer a nossa parte como investidores deste portfólio. Então, entre captação, investimento, aceleração, desinvestimento, a gente chega no momento de maturidade da gestora de começar a encerrar os primeiros fundos. E isso é muito positivo, porque também nos permite criar novos. A gestora vive de constituir safras de fundos que nascem, crescem e morrem. Então, é um momento prazeroso, uma vez que sendo uma das casas mais antigas do Brasil, vamos começar a entregar o resultado dos primeiros fundos de inovação do País. Isso não é trivial.

Avaliação de desempenho empresarial e potencial de escalabilidade.

4) A 30° Conferência das Partes (COP) da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em novembro deste ano na capital paraense Belém, no Brasil, amplificou o debate sobre as mudanças climáticas. Há uma clara conexão entre a COP21, ocorrida em 2015 em Paris, e esta. Como a KPTL observa a agenda climática vis a vis a criação de novos veículos de investimento para o desenvolvimento de startups com impacto na Amazônia?

A COP é o momento em que todo mundo se reúne na sala para discutir o problema. Mas o problema já existe antes mesmo das COPs, né? Acho que lá desde a Rio 92 (reunião realizada em junho de 1992 no Rio de Janeiro (RJ) e também conhecida como ECO92, onde se discutiu pela primeira vez a união entre o desenvolvimento socioeconômico e a preservação ambiental). Contudo, a COP no Brasil tem muito significado Primeiro, por ser no Brasil, por ser uma potência energética, climática, carbono, etc. Depois, coloca no holofote a necessidade de investimentos para essa vertical, a do clima. As grandes iniciativas, tomando por base prazo e custos que temos no planeta, demanda capital. Para fazer mais barato e mais rápido somente com muita tecnologia. E sem querer parecer pitoniza, tivemos a capacidade de ler esse movimento há pelo menos uma década.

5) Dentro dessa perspectiva, o advocacy é uma das ferramentas mais importantes dentro da agenda climática no mundo. E no Brasil, claro. O que a KPTL tem feito nesse sentido?

A KPTL vive de fazer bom investimento. Para fazer bons investimentos, ou boas jornadas empreendedoras, precisamos de bons empreendedores, bem formados, e necessitamos também de um ecossistema maduro para que isso aconteça. A KPTL, por exemplo, aposta em empresas de base tecnológica e inovação. Cabe aos governos facilitar a rota, à universidade abrir seus laboratórios e ciência, as corporações trazerem seus desafios para a mesa. Então, se isso tudo não estiver maduro para produzir bons ativos, eu não vou conseguir fazer bons investimentos. Portanto, o papel da KPTL nesse momento é o de impulsionar, empurrar, ser um catalisador até que esse ecossistema amadureça para que possamos realizar bons investimentos. E nesse sentido, a gente começou, há oito anos, a fazer isso com jovens universitários e de ensino médio no Brasil por meio do nosso evento, o VC Challenge, onde a gente já colocou quase 10 mil jovens em desafios de Venture Capital. Mais recentemente, desde 2023, construímos o BAS, que tem uma característica maior, foco em movimentar diferentes atores, tendo o empreendedor como peça central, tendo o jovem, o estudante, o pesquisador, o empreendedor como molas mestras. Mas também trazendo para a mesa esses outros atores que são importantes para esse ecossistema acelerar e amadurecer. No advocacy, temos dois bons exemplos no tocante a cumprimento de papel de uma gestora VC.

6) Você já mencionou o que enxerga para o ecossistema KPTL para o ano que vem, mas para o setor de gestão de fundos de venture capital, qual é a sua expectativa? Há segmentos da economia que vão ganhar mais atenção das gestoras no Brasil e no mundo? Qual será a dinâmica em uma realidade em que o gasto público global se aproxima de 100% do Produto Interno Bruto mundial?

Teremos um ano desafiador. Teremos eleições, juros altos, mas deveremos ter alguma coisa acontecendo ao longo de 2026. Candidaturas que vão se apresentar promissoras ou não, Banco Central que vai sinalizar em algum momento queda de juros… Mas penso que o próximo ano será desafiador para captação de recursos no mercado brasileiro. A poupança nacional vai estar ainda muito na renda fixa. Investimento corporativos e dos bancos de fomento, das agências de fomento, como BNDES, FINEP, bancos estaduais devem continuar sendo peças importantes em capital disponível para fomentar a inovação. Algumas verticais devem acelerar e amadurecer. A de clima, por exemplo. Há uma conversa sobre transição energética, pautas de descarbonização, mercado de carbono. Acho que isso tudo continuará crescendo… O próprio Agro deve continuar mantendo a boa dinâmica, mas não há nada fora do normal. Para 2026, talvez, surjam alguns outros setores, como o de mineração, construção civil e aeroespacial. Mas creio que a inovação no Brasil vai se aproximar mais de deeptech. A maior parte dos fundos não sabe avaliar ciência e isso não é tão simples. O Venture Capital no Brasil ainda está formando sua personalidade. A KPTL faz há duas décadas. Além disso, será um ano em que o mercado de fusões e aquisições deve continuar aquecido. Não que o mercado esteja mega comprador, mas ele não está ruim. Acredito que as companhias brasileiras podem estar se aproveitando, quem sabe, de um período de juro alto que deve estar se encerrando, olhando o médio prazo. Comprar ainda com juro alto, quer dizer que é preço de ativo mais barato, né? As corporações estrangeiras, para estas verticais tipicamente brasileiras, entendem que temos tecnologia já atuando em um mercado grande. Estão sempre curiosos para conversar. Então, penso que 2026 deverá ser melhor para desinvestimento de portfólio.

“A melhor maneira de predizer o futuro é inventá-lo”

Alan Kay, especialista em Tecnologia de Informação e vencedor do Prêmio Turing

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