“Não é magia, é tecnologia!”. Já diria o slogan publicitário eternizado no final dos anos 90 do século passado. E é justamente sobre ela, a tecnologia, o tema de nossa news.
Porque mesmo que as águas de março já tenham fechado o verão em 2026, e, de fato, estejamos na estação outonal, o papo aqui é cabeça.
Portanto, puxemos àquela cadeira acetinada, esculpida em pele de carneiro, assinada pelo designer da vez em algum coffee do Condado, para um olho no olho. Afinal, é possível desenvolver startups “cabeçudas” abaixo da linha do Equador?
Mas antes de respondermos ao justo questionamento, já vamos deixar claro como a água de nossos ricos aquíferos. Biotecnologia é pop no século XXI. Bemmmmm pooooooopppppp!
É pop pelo impacto. Pela dimensão das transformações que gera. Pelo vastíssimo campo de trabalho e de pesquisa – o mundo conhece os 118 elementos da tabela periódica, mas as estimativas são de que conhecemos ainda menos de 15% das espécies da Terra. E também porque é cheio de oportunidades, até a “tampa”.
Na real, sempre foi. Mas é que agora na era instagramável virou febre.
Duvida? Então, vamos lá.
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Imagine aquele pãozinho quente na vitrine. Imaginou? Pense, então, naquele queijinho derretido dentro dessa ciabatta dos deuses. Deu água na boca, não deu? Pois é… E não é que ambos são verdadeiros exemplos de biotecnologia. Sim, porque nem o queijinho e tampouco o pãozinho deixariam olhos marejados se não fosse os microrganismos. Sim, m-i-c-r-o-o-r-g-a-n-i-s-m-o-s.
Pasme. Todos eles, os microorganismos são frutos da biotecnologia, my friend. Assim como o vinho nosso de cada missa e a cerveja marota do churrasco…
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Nota do editor: Para quem deu aquele “migué” nessa aula de biologia, não se acostume, mas nós vamos lhe ajudar. Biotecnologia é aquela ciência multidisciplinar que usa organismos vivos, células ou moléculas biológicas (como DNA e enzimas) para desenvolver produtos, processos e tecnologias que melhoram a saúde humana, a agricultura e a indústria. Capisce?!? Prego!
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Ciabatta recém-saída do forno e pronta para ser entregue ao cliente.
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Mas temos mais conhecimento a compartilhar, ainda que não sejamos a enciclopédia Barsa – os mais jovens jamais vão entender.
O termo biotecnologia, mesmo, só foi criado há pouco mais de cem anos, em 1919, por um agrônomo húngaro. O nome? Karl Ereky. Calma, não é o Marx. Não precisa praguejar.
Na época, é bom frisar: a área começava a ganhar dimensão industrial e a gerar ondas de transformações épicas. Um arraso!
Quer uma verdadeira revolução? Penicilina. Se não fosse pelo brother escocês Alexander Fleming, ali entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, os humanos daquele tempo continuariam a temer as invisíveis bactérias.
Só que a sacada de Fleming abriu um portal de conhecimento para a humanidade. Porque a partir dali começou a surgir uma turma da pesada na sintetização de enzimas in vitro, o que possibilitou um “boom” a partir da década de 1960, abrindo uma avenida para…? Acertou quem pensou “engenharia genética”. E depois levou um dez se evoluiu na curva de raciocínio para os transgênicos dos anos 80 do século passado, meu pequeno e pequena gênia da cultura de almanaque.
Mas voltemos a Fleming. O nosso chapa do líquido dos barris envelhecidos tirou a venda dos olhos da humanidade. E de lá para cá, ainda tivemos marcos como a clonagem de animais – lembra da comoção com a felpuda ovelhinha Dolly –, o sequenciamento do genoma humano, a criação de células sintéticas e, mais recentemente, das vacinas contra a Covid.
De avanço em avanço, saque só, o mercado de biotecnologia alcançou em 2025 a módica cifra de US$ 1,77 trilhão. E a estimativa é a de que crescerá ainda 13,61% ao ano, até 2035, batendo nos US$ 6,34 trilhões, de acordo com a Precedence Research. Again: é TRILHÃO com T maiúsculo, companheiro. Tá bom, ou quer mais?
Tem até uns malucos fazendo animais bioluminescentes a partir de Crispr. Já viu os documentários?
Se isso não for pop, o que seria, cabe a pergunta.
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A medula espinhal, estrutura essencial para os movimentos do corpo, hoje é foco de estudos com moléculas como a laminina e seus derivados, investigadas por seu potencial regenerativo.
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Agora, se é pop, pode apostar: tem brasileiro. Mas no hype há método, é bom frisar. E não é feitiçaria.
Ainda bem, diria o pesquisador entre pipetas e tubos de ensaio, porque a ciência brasileira está recebendo rara atenção atualmente. Já ficou evidente até para a “tiazinha do Zap” que essa “coisa” de pesquisa científica é cara e demorada. Mesmo. São mais de V-I-N-T-E A-N-O-S de trabalho, R$ 100 m-i-l-h-õ-e-s investidos, para que a doutora Tatiana Sampaio, por exemplo, sacasse um coelho da cartola chamado Polilaminina. Que já apresenta resultado, apesar de ainda ser cedo para dizer “temos”.
Mas vamos lá… Serião!
Enquanto a internet discute o medicamento da doutora Tatiana, o que passa ao largo é o quanto o Brasil tem sido protagonista silencioso em biotech. Temos um ecossistema amadurecido, a maior biodiversidade do planeta, universidades de ponta, um bom punhado de atividades econômicas geradoras de demanda e uma série de casos de pesquisas maduras, que migraram da academia para o mercado. Mas nenhuma dessas pesquisas, e das empresas nascidas delas, têm recebido a mesma atenção ou causado a comoção parecida com a gerada pela Polilaminina.
Então, m-u-i-t-a c-a-l-m-a nessa hora.
Um estudo recente da Endeavor diz que o nosso Brasa – oh, my… – está diante de uma onda de startups e scale-ups voltadas à biotecnologia. Muitas delas têm trabalhado em soluções para lidar não apenas com as “saúvas” brasileiras, mas para resolver também desafios globais relevantes, em áreas que vão do agronegócio à saúde e bioenergia.
Hoje, quase metade das startups de base científica e tecnológica no País atua em biotecnologia. São 433 empresas, em um universo de 952 deeptechs, mapeadas pela Emerge, em parceria com o Cubo Itaú, para o relatório Deep Tech Radar Brasil 2025.
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Portanto, respondendo à pergunta do início da news. Sim, é possível, não é mesmo, Renato Ramalho, CEO da gestora de fundos de venture capital KPTL, que já investiu em 22 biotechs e tem atualmente cinco em portfólio: “É factível, mas não é fácil e tampouco trivial”.
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Renato Ramalho, CEO da KPTL. (Foto: Divulgação)
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Um dos exemplos mais emblemáticos é o da pioneira Rizoflora. Nascida nos laboratórios da Universidade Federal de Viçosa (MG), em 2006, a empresa foi a primeira a receber dinheiro do fundo Criatec I, com capital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e gestão da KPTL. Em 2008, serviu de case para o ecossistema brasileiro, como conta Gustavo Mamão, no livro Inovação na Raiz.
A história da Rizoflora é emblemática porque comprovou a possibilidade de inovação a partir das universidades brasileiras, e de criação de um novo mercado, substituindo produtos químicos por biológicos no controle de pragas na agricultura. Em 2016, a empresa foi adquirida por uma multinacional, entregando um retorno de cinco vezes (grifo nosso) vis a vis o capital investido. Mas o legado foi além da numeralha.
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Leandro Freitas, do Departamento de Fitopatologia da Universidade Federal de Viçosa, e Gustavo Mamão, diretor da Rizoflora. (Foto: Divulgação)
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“Não havia um mercado consolidado para produtos de biocontrole, apenas uma ideia promissora e a crença de que a agricultura poderia ser mais sustentável. Os órgãos reguladores no Brasil não sabiam o que pensar de nós; éramos tratados quase como uma empresa de agrotóxicos”, conta Mamão, em um artigo publicado recentemente na AgFunderNews. “O que tínhamos era uma visão, apoiada pela profunda expertise técnica do meu sócio e pela credibilidade científica da universidade onde ele trabalhava. Não era nada glamoroso. Estávamos construindo tudo do zero, aprendendo conforme avançávamos e fazendo o possível para impulsionar o setor”, lembra.
O caso Rizoflora antecipou um novo paradigma tecnológico. O Brasil deixou de ser apenas importador de químicos para se tornar referência mundial em produtos biológicos, provando que a ciência, apoiada pelo ecossistema de inovação brasileiro, então em construção, conseguia substituir agrotóxicos e gerar valor real. Um movimento que, hoje, ganha nova escala.
O próprio Mamão, vivendo atualmente nos Estados Unidos, trabalha há um ano e meio como Head de Desenvolvimento de Negócios Internacionais para uma empresa do segmento, a IdeeLab. Sediada em Piracicaba (SP), a IdeeLab desenvolve e fabrica bioinsumos para a área agrícola, e os vende para outras empresas, transferindo tecnologia dentro de um modelo conhecido como Contract Development and Manufacturing Organization (CDMO).
Em outras palavras, desenvolvimento e organização de produção por demanda.
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Entre as empresas pioneiras e mais bem sucedidas do setor no Brasil, está também a Bug Agentes Biológicos, outra startup impulsionada pelo Criatec I, gerido pela KPTL. Idealizada nas bancadas dos laboratórios da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), a Bug rapidamente ganhou visibilidade por usar uma nova abordagem para o controle de pragas em lavouras como cana-de-açúcar, milho e soja. Em vez de produtos químicos, a empresa chegou ao mercado apostando em uma solução biológica: insetos parasitas de ovos de pragas, para reduzir os custos e os danos gerados por agrotóxicos na agricultura.
Investida em 2009 pelo fundo do BNDES, a Bug ganhou musculatura e escala. Em poucos anos, virou uma das estrelas do ecossistema de startups brasileiro, sendo eleita pela revista Fast Company, dos Estados Unidos, como a mais inovadora do País, em 2012. No ano seguinte, tornou-se a primeira empresa latino-americana a integrar o grupo de pioneiros da tecnologia, do Fundo Econômico Mundial, e, pouco antes de ser vendida à holandesa multinacional Koppert, que assim assumiria a liderança do mercado da América Latina em 2017, venceu o prêmio Nanocell de Empresa de Biotecnologia Empreendedora.
“Quando começamos nesse negócio, os produtores associavam o biológico ao orgânico”, conta Gustavo Herrmann, cofundador da Bug e hoje diretor comercial da Kopper. “Mas isso foi mudando, na medida que nos estruturamos com o suporte dos investidores, ganhamos escala e mostramos que a tecnologia era profissional e aplicável na agricultura tradicional”.
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Se a Rizoflora e a Bug abriram a mata a golpes de facão, novas empresas, como a NanoScoping, outra investida da KPTL, estão pavimentando a estrada e cruzando fronteiras. Especializada na aplicação de nanotecnologia à produção de insumos para os mercados veterinário, cosméticos, agrícola e de suplementação, a empresa catarinense surgiu em 2014, e hoje tem mais de 100 produtos do portfólio.
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Letícia Mazzarino e Beatriz Valeirinho, co-fundadoras da NanoScoping. (Foto: Divulgação)
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“Nossa tecnologia permite estabilizar ativos vegetais sem o uso de solventes orgânicos. Um exemplo é o nosso produto de ferro (N-Iron), que apresenta absorção superior em comparação aos suplementos convencionais, comprovada em uso clínico, evitando a necessidade de medicação endovenosa em certos casos”, diz Beatriz Valeirinho, co-fundadora da NanoScoping, junto com Letícia Mazzarino. “Essa performance sem componentes químicos agressivos é a nossa maior alavanca de crescimento”, afirma.
Com um modelo de negócios focado na venda para outras empresas, a NanoScoping está em um momento de expansão internacional acelerada e aumento da receita, afirma Beatriz. O movimento ganhou força no ano passado, com o lançamento da linha de nutrição no mercado externo e um aumento geral de 70% nas vendas, conta a empreendedora. Com isso, atualmente 50% do faturamento já vem de mais de 20 países, nas Américas, Europa, Ásia e Oceania. “Em 2026, esperamos colher os frutos desse desenvolvimento, consolidando a linha cosmética e focando no forte potencial de expansão da linha de nutrição”, diz.
Em paralelo, a empresa trabalha em novos lançamentos, desenvolvidos por uma equipe de inovação e P&D formada por oito pessoas, entre mestres e doutores nas áreas de química, nanotecnologia e farmácia.
A NanoScopin não foi o primeiro investimento em nanotecnologia da KPTL – antes, já havia entrado na Nanovetores, vendida para a suíça Givaudan, em 2022, em uma das melhores transações da gestora, com multiplicação do capital em 14 vezes. Mas se deu um momento de mercado bastante diferente, em 2024. “O desenvolvimento de biotechs no Brasil avançou muito. Em 2014, nos sentíamos ‘peixes fora d’água’ em eventos de startups, que eram 90% focados em SaaS e dominados por homens. Falávamos de nanotecnologia e laboratórios, uma realidade muito diferente. Hoje, já existem eventos específicos para Deep Techs e Biotechs, com mais pessoas da academia migrando para o empreendedorismo”, diz Beatriz.
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“O amadurecimento do ecossistema é visível, especialmente pelo avanço regulatório que tem permitido o licenciamento de novas terapias biotecnológicas. Esse novo cenário tem despertado o interesse da grande indústria e fortalecido o mercado”, concorda Marina Alvarenga, co-fundadora da Omics, outra investida da KPTL, ao lado da professora Fernanda Landim, uma das pioneiras na pesquisa e aplicação clínica de células-tronco em veterinária.
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Marina Alvarenga, cofundadora da Omics. (Foto: Divulgação)
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“Filha” da Unesp de Botucatu (SP), a startup foi fundada em 2014, com a missão de levar tratamentos regenerativos do ambiente acadêmico para o mercado. Após um 2025 focado em P&D e na consolidação da marca como referência em terapia celular, neste ano a empresa decidiu apostar no desenvolvimento de novos produtos, financiados com apoio de um projeto de subvenção do Finep, e em uma ofensiva comercial, para crescer até 20%, focando principalmente em estados nos quais ainda têm presença tímida, como Rio de Janeiro, Pernambuco, Amazonas, Rio Grande do Sul, e Paraná, diz Marina.
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Os reflexos dessa evolução técnica e regulatória do mercado são evidentes também na trajetória da Eleve Science, de Ribeirão Preto (SP). Fundada em 2019 por Franciane Marquele de Oliveira, que trouxe uma sólida bagagem acadêmica e industrial, e Evandro Marquele, com uma trajetória profissional em gestão financeira, a startup nasceu com o propósito de substituir o uso de animais em testes laboratoriais através da produção de pele 3D. Alternativa ética ao uso de animais, a tecnologia, que tem certificações Reblas, Eqfar e MAPA, tem sido usada também na análise de novos medicamentos e validações pelas indústrias farmacêutica, veterinária e de cosméticos, afirma Evandro.
Depois de receber um aporte do Finep Startup I, gerido pela KPTL, no final de 2024, a Eleve Science cresceu quase 100% em receita, em 2025, e iniciou 2026 com a meta de crescer mais 30%. O desafio agora é físico: a demanda por estudos complexos cresceu tão rápido que a prioridade do ano é a expansão da capacidade produtiva para capturar as oportunidades represadas em sua própria carteira de clientes.
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Para Marquele, o ecossistema brasileiro vive um novo momento. “Muitos estudos que antes eram realizados apenas em grandes centros no exterior agora são feitos aqui, graças ao investimento pesado do setor público e privado, com muita capacitação da mão de obra técnica. O próximo passo é acelerar essa internalização do que é feito lá fora para dar ainda mais credibilidade aos centros de biotech brasileiros”, afirma.
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Evandro Marquele, cofundador da Eleve Science. (Foto: Divulgação)
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“Ao longo das duas últimas décadas, construímos um ecossistema que, apesar de todas as dificuldades macroeconômicas e estruturais do País, desenvolveu uma série de empresas, a partir de capital semente, que hoje estão maduras”, diz Gustavo Junqueira, diretor da KPTL.
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Gustavo Junqueira, diretor da KPTL. (Foto: Divulgação)
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Isso significa que é fácil passar a arrebentação no Brasil? Não, não é. E entre os obstáculos enfrentados pelas startups da área, o relatório da Emerge e do Cubo cita dificuldades de acesso à infraestrutura para validação inicial de tecnologias, baixa atração de investidores privados e a falta de gestores nos quadros das empresas com conhecimento e experiência de mercado.
Portanto, fazer acontecer é uma equação difícil. O processo é lento, e não admite atropelos. Além de precisar combinar, em doses certas, ciência, tecnologia, inovação e uma visão pragmática de negócios. Mas quando dá certo – e tem dado cada vez mais, como mostram os exemplos aqui citados -, o resultado é de encher os olhos. E, (por que não?), os bolsos.
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“A natureza não dá saltos”.
Gottfried Wilhelm Leibniz
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Markus Schreyer
Fundador e sócio-gestor da The Ganesha Lab, aceleradora de escala global para startups de biotecnologia e ciências da vida, com foco em startups da América Latina. Tem larga experiência na região. Foi diretor de curadoria e seleção da Chile Global Angels, uma das redes de investidores-anjo mais prestigiadas e antigas do Chile, e ocupou diversas posições de liderança na Thermo Fisher Scientific, maior empresa do mundo no setor de serviços científicos, onde chegou a vice-presidente para o Brasil e a América do Sul. É bacharel em tecnologia de processos químicos pela Universidade de Ciências Aplicadas de Colônia.
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Markus Schreyer. (Foto: Divulgação)
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1) Como alguém com larga experiência internacional, como avalia o ecossistema de biotecnologia do Brasil atualmente?
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Sob uma perspectiva internacional, o Brasil possui hoje um dos ecossistemas de biotecnologia mais promissores entre os mercados emergentes. O País combina uma base científica sólida — com instituições como USP, UNICAMP, Fiocruz e Butantan — a um sistema de saúde amplo e complexo que gera uma demanda real por inovação. Há também uma indústria correlata que demonstra interesse crescente em inovações de biotech e saúde, incluindo farmacêuticas como Eurofarma e Aché, ou gigantes do diagnóstico como Dasa e Fleury. Além disso, o Brasil beneficia-se de um apoio institucional único por meio de organizações como BNDES, FINEP e FAPESP, que ajudam ativamente na tradução da ciência em tecnologia. Na última década, também vimos o surgimento de startups de biotecnologia, financiadas por Venture Capital e investidores especializados, começando a moldar o ecossistema. De muitas formas, o Brasil está agora em um estágio semelhante ao que partes da Europa estavam há 15 ou 20 anos: rico em ciência e cada vez mais focado na construção de empresas de biotecnologia globalmente competitivas. A indústria de VC precisa se consolidar e colaborar estreitamente para fornecer aos fundadores um ecossistema que preencha as lacunas existentes.
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2) Em que segmentos enxerga maior potencial de mercado para as startups brasileiras do setor? E em que segmentos elas já estão na vanguarda mundial?
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O Brasil possui forças naturais em áreas intimamente ligadas à sua expertise científica e estrutura econômica. Doenças infecciosas, vacinas e diagnósticos são campos particularmente fortes, dada a profunda tradição de pesquisa do País em imunologia e medicina tropical, e a presença de instituições como Butantan e Fiocruz. A biotecnologia agrícola é outra grande oportunidade, já que a liderança do Brasil na agricultura global cria um ambiente ideal para inovações em insumos biológicos, tecnologias de microbioma e soluções agrícolas sustentáveis. Olhando para o futuro, também vejo um potencial significativo na descoberta de fármacos orientada por IA, bioinformática e diagnósticos de precisão, onde os requisitos de capital são menores, mas o talento científico é forte. Finalmente, a extraordinária biodiversidade do Brasil e seu papel no clima e na agricultura globais posicionam o País de forma única para avanços na biotecnologia climática e na descoberta de medicamentos inspirados pela biodiversidade.
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3) Quais os principais desafios que o país ainda tem pela frente para que essa indústria ganhe mercado não só no Brasil, mas globalmente?
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O principal desafio para a biotecnologia brasileira hoje é o ganho de escala global. Embora o financiamento em estágios iniciais (early-stage) e a pesquisa científica tenham melhorado significativamente, o capital de crescimento (growth-stage) para deep biotech permanece limitado em toda a América Latina. Outro desafio importante é fortalecer a tradução da ciência acadêmica em empresas apoiadas por capital de risco, incluindo uma transferência de tecnologia mais eficaz e incentivos mais fortes para cientistas-empreendedores. A complexidade regulatória e os prazos longos também podem retardar a inovação e a formação de empresas. Portanto, é crítico envolver os órgãos reguladores e as instituições de apoio neste processo. Um exemplo positivo é como a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial tem trabalhado não apenas para homologar o caminho regulatório com mercados líderes como os EUA, mas também oferecendo infraestrutura e rede para acelerar o acesso e a penetração no mercado. Em última análise, as startups brasileiras de biotecnologia mais bem-sucedidas provavelmente serão aquelas que ‘nascerem globais’, construindo parcerias internacionais e estratégias de desenvolvimento desde o início. Se essas lacunas continuarem a ser fechadas, o Brasil tem o potencial de se tornar um dos hubs de biotecnologia mais influentes do Hemisfério Sul. A indústria de VC precisa se consolidar e colaborar estreitamente entre si, bem como com a indústria, instituições e reguladores, proporcionando aos fundadores um ecossistema que feche as lacunas. O financiamento dessas necessidades deve ser apoiado por recursos públicos.
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