“Vem chegando o verão… / Um calor no coração…. ”
É, my friend… Vamos combinar que ele nem precisou chegar com tapete vermelho esticado e banda a caráter. Porque é oficial: habemus El Niño. E a julgar pelo apetite da “criança”, pode cravar: “a base vem forte”. Esse é dos bons!
Estamos no inverno brasileiro, distante do verão abaixo da linha do Equador, e “el pibe” do clima já mandou avisar que vem água. Enchentes no Rio Grande do Sul? Temos. Tempestade devastadora na metrópole do interior paulista, Ribeirão Preto, a Califórnia brasileira? Check. E vem mais.
É a famosa tragédia anunciada. Sem surpresas, sem pirotecnia, sem tecnologia.
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Sobrevoo das áreas afetadas pelas chuvas em 2024, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
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Chega a ser difícil acreditar que os pescadores peruanos, que há séculos perceberam a presença recorrente e abundante de peixes tropicais, de águas mais quentes, na gelada costa norte do Peru, antes do Natal, hoje fariam a mesma referência a Jesus Cristo, que acabou por batizar o fenômeno climático. Sim, “El Niño”.
Por quê? Bem, o que antes era um dádiva, peixes em profusão para a ceia natalina, tornou-se, com o impulso das mudanças climáticas, uma fonte extra de incertezas. Em vez de redenção, o fenômeno deste ano prenuncia o c-a-o-s, em um cenário já conturbado, marcado por conflitos no Oriente Médio, na Rússia e na Ucrânia, crise energética, polarização política em eleições presidenciais no Brasil e, para completar, agora, uma nova onda de tarifas alfandegárias impostas pelos Estados Unidos. Believe me, the feeling isn’t good. Oh, no!
Ainda não se sabe exatamente a intensidade que terá o fenômeno. Mas à medida que centros e institutos meteorológicos, nacionais e internacionais, afinam suas previsões, o sentimento de mega sena da virada vai ficando mais distante e vai dando lugar ao placar de jogo entre Curaçao e Alemanha – gol da Alemanha! Ou seja, o óbvio se cristaliza: a possibilidade de que o fenômeno tenha intensidade forte ou muito forte.
Dá até pra ouvir vindo lá do fundo o velho Luiz Gonzaga… “Que braseiro, que fornalha. Nem um pé de plantação. Por falta d’água, perdi meu gado. Morreu de sede meu alazão ”
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Nota do editor I: Tecnicamente, o El Niño é caracterizado pelo aquecimento, acima da média histórica, de ampla área do centro e do leste do Oceano Pacífico Equatorial, que provoca mudanças nos padrões climáticos globais, intensificando períodos de seca, em regiões como o Norte e o Nordeste do Brasil, e de chuvas e inundações, em outras, como no Sul.
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No Brasil, em particular, a intensidade do El Niño vai depender ainda de outros fenômenos, como o Dipolo do Atlântico e o Madden-Julian, como explica Mateus Lima, CEO da i4sea, startup especializada em inteligência e gestão de riscos climáticos.
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Nota do editor II: O Dipolo Atlântico é caracterizado pela diferença de temperatura entre as águas do norte e do sul do Atlântico, que altera a distribuição de chuvas no Norte e Nordeste do Brasil. A Oscilação Madden-Julian é uma onda atmosférica de nuvens, que se desloca pela linha do Equador a cada 30 ou 60 dias, intensificando ou inibindo as chuvas no país – é um dos principais fatores para a previsão do tempo no médio prazo.
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Mas o fato é que as perspectivas não são boas. Como já cantava Roberto Carlos, em 1986, em uma fase apocalíptica… ” Olho os jornais e estremeço, todo final tem seu começo ”
Se eventos passados servem de alerta, no último El Niño, em 2023 e 2024, o Rio Grande do Sul ficou debaixo d’água e grandes rios da Amazônia, como o Negro, o Solimões e Madeira, quase secaram. Isso mesmo com o fenômeno classificado, na maior parte do período, como moderado, afirma um dos maiores especialistas em estudos sobre mudanças climáticas no mundo, o cientista brasileiro Carlos Nobre (veja mais na seção três perguntas). Ele pondera que, na época, o El Niño coincidiu com o aquecimento do oceano Atlântico Tropical, ao norte do Equador. De qualquer forma, os riscos mapeados são multidimensionais.
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Embarcação encalhada durante o período de seca de 2023, em Manaus, no Amazonas.
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Os impactos econômicos, por exemplo, podem ser dramáticos. Quebra de safras, escassez de energia, interrupção de cadeias logísticas, inflação… you name it. No fim das contas, como qualquer bom gestor sabe, a conta chega, e chega também na Faria Lima.
Quer exemplos? Por receio de escassez de água para operação das eclusas, a Autoridade do Canal do Panamá, por onde passa cerca de 5% do comércio global, já restringiu parte das reservas para a travessia de navios entre os oceanos Pacífico e Atlântico. Durante o último El Niño, por falta de chuvas, o tráfego mensal de embarcações pelo canal chegou a ser reduzido em quase um terço em relação ao pico de 1.523 navios, em dezembro de 2022, chegando a 1.054 em fevereiro de 2024, de acordo com dados da Weathernews Inc.
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Canal do Panamá restringiu o número de travessias, em função da escassez de água (Foto: Dubes Sônego).
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Então, é melhor prevenir do que remediar. Analistas da Fitch Ratings já disseram que notas de crédito de empresas do setor de transportes na América Latina podem ser rebaixadas por causa do fenômeno, que traz riscos tanto à infraestrutura quanto ao volume de carga. Em 2023, por exemplo, o canal de acesso ao porto de Itajaí, em Santa Catarina, ficou 16 dias fechado, por causa do volume excessivo de chuvas e fortes correntes no rio, inviabilizando o embarque e o desembarque de mercadorias. No período, mais de 40 navios permaneceram ao largo do porto.
Há fragilidades importantes também nos contratos de concessões de rodovia e saneamento, como aponta a consultoria inter.b, em reportagem no Neofeed. A maior parte deles, em especial antes de 2024, prevê que prejuízos gerados por eventos de “força maior”, de forma genérica, podem ser compartilhados com o poder público. Na avaliação da consultoria, a questão é que, da forma como estão, os contratos colocam no mesmo balaio problemas previsíveis e imprevisíveis, desincentivando monitoramento contínuo e obras preventivas, algo que tem sido corrigido em contratos mais atuais, em especial de concessão de rodovias. A consultoria aponta ainda como problema a baixa oferta de seguros climáticos no país.
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Em 2023, acesso ao porto de Porto de Itajaí, em Santa Catarina, ficou fechado por 16 dias.
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O personagem Fred Albuquerque, o Fred Faria Lima, pode achar que essa pauta ESG é meio boring. Mas o Morgan Stanley está preocupado. As estimativas do banco são de que mesmo os efeitos moderados do fenômeno sobre a inflação serão de 0,84 pontos percentuais, podendo dobrar, para 1,68 pontos percentuais, em uma cenário de um El Niño mais severo.
O próprio governo brasileiro elevou a previsão de inflação para o ano, de 4,5%, para 5,1%, acima do teto da meta do Banco Central (BC); estabeleceu uma agenda de reuniões semanais entre ministérios, institutos de pesquisa e universidades, para monitorar os efeitos do El Niño; reforçou o orçamento e medidas para o combate a eventuais incêndios florestais, e instalou uma sala de situação no Palácio do Planalto, para emergências. Na área da saúde, foram tomadas medidas para que o Sistema Único de Saúde (SUS) tenha condições de lidar melhor com problemas relacionados ao fenômeno, como calor extremo, fumaça de queimadas, aumento de doenças respiratórias, qualidade da água e desabrigados.
A movimentação não é à toa. Para além das atribuições institucionais, o descontrole, em eventual crise gerada pelo fenômeno, traz riscos políticos para o governo nas eleições, como avaliam diversos analistas. Coxão duro não é picanha, my friend. Mas promessa é dívida.
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A boa notícia é que hoje existem formas de prevenir e minimizar impactos gerados por um eventual El Niño turbinado. Apesar do apetite do brasileiro para risco ser digno de operações alavancadas em criptomoedas, e a preparação para gestão de crises largamente negligenciada, o poder público e muitas empresas estão acordando para a resiliência climática e se mexendo para agir com prontidão e eficiência, caso o pior aconteça. Dentro desse contexto, startups e tecnologias de ponta têm feito o papel de “Supernannies”.
A Fractal, de inteligência climática, por exemplo, tem em Santa Catarina um de seus principais cases. Dona de uma ferramenta computacional em nuvem, que trabalha associada a diversos modelos meteorológicos locais, hiperlocais e globais, além de outras fontes de dados, como satélite, radares e estações de monitoramento, a empresa tem ajudado o Estado a se preparar desde antes do El Niño de 2023 e 2024. A startup faz isso indicando, com suas ferramentas, os municípios, quadras, ruas e benfeitorias com maior probabilidade de serem atingidos, para que a Defesa Civil atue retirando as pessoas, salvando seus pertences e, assim, reduzindo os impactos do eventos climáticos extremos.
Como forma de mensurar os resultados do trabalho que desenvolve, a Fractal comparou as perdas econômicas registradas no El Niño de 2023 e 2024 no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD) sobre uma das cidades mais atingidas, Rio do Sul, com as do El Niño de 2015, que teve uma área alagável equivalente.
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A constatação foi de que, neste único município, entre os 53 afetados no Estado, houve uma economia superior a R$ 6 bilhões. “Porque foi a maior mobilização já feita pelas forças de defesa de Santa Catarina para atuar nos municípios que estavam sendo identificados através da nossa ferramenta”, afirma Henrique Rocha, cofundador e CEO da Fractal, que atua fortemente também junto a empresas de setores estratégicos, como o elétrico e o de mineração, no Brasil e lá fora.
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Henrique Rocha, cofundador e CEO da Fractal. (Foto: Divulgação)
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No caso dos serviços prestados à empresas do setor elétrico, afirma Rocha, além da mitigação de perdas, existe a possibilidade de calibrar melhor a operação, a partir das previsões climáticas, para a otimização da geração, por exemplo. “No final das contas, a solução de inteligência climática não se torna um custo operacional, mas sim uma espécie de ativo, que vai trazer enormes benefícios e grandes economias”, diz.
Neste ano, com o aumento recente da probabilidade de um super El Niño, começando neste ano e se estendendo para o próximo, Rocha diz que os clientes já estão se movimentando, principalmente na região Sul, se preparando para as chuvas, e no Norte, interessados em saber como se preparar para a eventualidade de uma seca intensa e prolongada.
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Outro exemplo é a i4sea, startup de gestão de riscos climáticos, que tem como clientes alguns dos principais portos do mundo, entre os quais o de Santos, no Brasil, indústrias e empresas de setores altamente regulados, como o elétrico. Fundada por oceanógrafos em Salvador (BA), em 2015, a empresa desenvolveu tecnologia própria para a entrega de previsões atmosféricas e oceanográficas hiperlocais e hoje vende serviços de gestão de risco climático.
Um de seus diferenciais é a escala em que as previsões de tempo são apresentadas. A maior parte das empresas do ramo trabalha com uma grade com unidades de 25 quilômetros quadrados, enquanto a startup soteropolitana chega a 1 quilômetro quadrado e, para condições oceanográficas, aos 100 metros quadrados, em todas as áreas em que atua, no Brasil, no Mar do Norte, no Chile, no Peru e no México. Com base nelas, os clientes podem se programar para lidar até mesmo com fenômenos de microclima, como a bomba de vento que destelhou a fábrica da Toyota em Porto Feliz (SP), em setembro de 2025.
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“Se eu sei, com sete dias de antecedência, que existe a possibilidade de um evento como esse estar chegando, consigo preparar um plano de contingência”, afirma Mateus Lima, cofundador e CEO da i4sea. “E, em situações assim, quanto antes, melhor. Porque há estudos que mostram que um plano de contingência feito com uma hora de antecedência gasta três vezes mais do que um plano de contingência feito com 24 horas de antecedência”.
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Mateus Lima, cofundador e CEO da i4sea. (Foto: Divulgação)
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Para o El Niño, diz o empresário, os clientes já estão avaliando os possíveis impactos sobre suas operações, eventuais custos de manutenção e estruturando protocolos de ação.
É sempre bom lembrar que, no Brasil, eventos climáticos extremos já geram perdas de cerca de R$ 110 bilhões ao ano, segundo estudo recente de pesquisadores da UFRJ. B-i-l-h-õ-e-s!
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Há soluções também para o agronegócio, uma das atividades potencialmente mais sensíveis aos efeitos do El Niño, e com maior potencial de impacto negativo sobre a economia.
Um exemplo é o da Agrotools, empresa de inteligência territorial para o agronegócio, que integra dados climáticos, ambientais e produtivos para apoiar decisões de crédito, seguros, compliance, ESG e gestão de riscos. Na prática, no agronegócio, isso significa integrar diferentes fontes de dados e metodologias desenvolvidas para transformar informações agroclimáticas em inteligência para a gestão de riscos da safra. As lavouras são monitoradas continuamente, para que seja possível identificar alterações relevantes no desenvolvimento das culturas. E, com essa visão integrada do cenário, diz Sergio Rocha, CEO e fundador da empresa, os clientes conseguem priorizar ações, reduzir incertezas e tomar decisões fundamentadas mais rapidamente, diante de eventos climáticos extremos.
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“O principal diferencial em relação aos eventos passados está na capacidade atual de monitoramento e análise”, afirma o empresário. “A integração entre sensoriamento remoto, dados meteorológicos e modelos agroclimáticos permite avaliar riscos com maior precisão, projetar cenários e acompanhar o desempenho das culturas em escala territorial”.
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Sergio Rocha, CEO e fundador da Agrotools. (Foto: Divulgação)
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De acordo com ele, os efeitos do fenômeno já começam a ser observados e variam conforme a região, as safras e a fase de desenvolvimento visível das plantas de diferentes culturas agrícolas. No Sul, por exemplo, o aumento das chuvas tem elevado o risco de atraso nas operações no campo, excesso de umidade e maior pressão de doenças, especialmente em culturas de safra de inverno (como trigo e aveia), afirma. Mas só com o passar dos meses será possível entender a dinâmica do El Niño deste ano – é consenso no meio científico que nenhum evento é igual ao anterior, pela variedade e complexidade dos fatores envolvidos.
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Seja como for o El Niño deste ano, o fato é que eventos extremos deixaram de ser exceção. E é melhor os governos e empresas se acostumarem com isso, criando uma cultura de prevenção e planejamento para mitigar riscos tão enraizada quanto as músicas de Gonzagão. Para que, mesmo com o aquecimento global, histórias como as que deram origem à Asa Branca ou que castigaram o Rio Grande Sul fiquem definitivamente no passado.
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“Há vinte e cinco anos, as pessoas podiam ser desculpadas por não saberem muito, ou não fazerem muito, sobre as mudanças climáticas. Hoje, não temos desculpa.”
Desmond Tutu, ex-arcebispo da Cidade do Cabo
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Carlos Nobre
Um dos cientistas brasileiros mais respeitados internacionalmente, referência mundial em estudos sobre aquecimento global. Meteorologista, pesquisador e professor universitário, ligado há mais de 43 anos ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Presidente do Conselho Diretor do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e membro do conselho de uma série de instituições globais, entre as quais o World Climate Research Programme (WCRP) e a The Rockefeller Foundation Economic Council on Planetary Health. Engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), doutor em meteorologia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). É membro da Royal Society, uma das mais antigas e importantes academias de ciência do mundo, e foi nomeado pelo Papa Leão XIV membro do conselho do Vaticano que trata de desenvolvimento humano.
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Carlos Nobre. (Foto: Gil Silva)
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1) O El Niño tem sido um assunto presente na imprensa e parece haver uma preocupação maior com fenômenos climáticos extremos como este. Estamos vivendo um momento de inflexão na percepção pública e empresarial sobre a necessidade de planejamento para a crise climática? De que forma o senhor acredita que as empresas podem se preparar para lidar com o El Niño e outros fenômenos climáticos similares que estão por vir?
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Com o planeta registrando aquecimento recorde e eventos extremos cada vez mais frequentes, como ondas de calor, incêndios, secas e chuvas excessivas, vendavais e ressacas, a percepção pública sobre os riscos climáticos aumentou muito. Todas as projeções de centros climáticos globais e nacionais, como a NOAA, o ECMWF, o INPE e o CEMADEN, indicam um El Niño forte ou muito forte neste segundo semestre, exigindo forte atuação do setor público na adaptação e na proteção da população. Onde houver chuvas excessivas, o foco deve ser a prevenção de inundações, alagamentos e deslizamentos. Nas regiões de seca, a preocupação maior é com o impacto na agricultura e com os incêndios florestais. O setor privado, especialmente o agronegócio, precisa se preparar para secas, principalmente na Amazônia, no Nordeste e em partes do Centro-Oeste, que geram queda enorme na produção agrícola, buscando soluções operacionais para mitigar essas perdas. No Sul, onde há risco de chuva excessiva, a preocupação deve ser com inundações, deslizamentos, alagamentos e com a erosão do solo, que também impactam a produção agrícola.
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2) O governo tem criado regulações que incentivem ou obriguem entes do setor privado e do setor público, em nível estadual e municipal, a se planejar e preparar para eventos climáticos extremos?
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O governo tem a obrigação de criar políticas implementadas em grande escala, nos setores público federal, estadual e municipal, e também no setor privado, para preparar o País contra essa emergência climática, que traz inúmeros riscos para o Brasil. E o Governo Federal está se preparando muito. No entanto, é fundamental que o Congresso Nacional não derrube marcos legais importantes de proteção ambiental, como temos visto em 2025 e 2026, com a aprovação de leis que tornam muito grave a emergência climática. No ano passado, por exemplo, foi aprovado o PL 2159, estabelecendo regras, prazos e modalidades simplificadas de licenças no Brasil, que certamente vai aumentar os desmatamentos, a mineração ilegal e a infraestrutura, muito perigosa, de rodovias. Ou outros projetos de lei, que desvalorizam os sistemas avançados satelitários para monitorar tudo o que está acontecendo. É muito importante não deixar o Congresso Nacional derrubar políticas públicas essenciais para proteger toda a população brasileira do risco enorme desses eventos climáticos extremos, como as chuvas excessivas nos últimos dias, no Rio Grande do Sul, que já têm a ver com o El Niño.
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3) A tecnologia e a inovação podem contribuir para mudar o atual cenário de aceleração do aquecimento global? Se sim, de que forma? Se não, por quê?
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Não há dúvida. A ciência já mostra que vamos atingir 1,5 grau de aquecimento de forma permanente até 2030, e os eventos extremos baterão recordes. Temos realmente que buscar o máximo de tecnologias apropriadas, incluindo soluções baseadas na natureza. As ondas de calor, por exemplo, são o evento extremo que mais leva a óbitos no mundo. São, atualmente, mais de 500 mil mortes por ano – entre 10 mil e 14 mil delas no Brasil. Precisamos de soluções ambientais e tecnológicas para o problema, como uma grande restauração da vegetação nas cidades e o uso de telhados verdes para baixar a temperatura dentro das residências de dezenas de milhões de brasileiros e brasileiras. A restauração florestal nas margens dos rios também reduz a erosão, retém mais água da chuva e diminui muito as inundações. A chamada “esponja verde urbana” baixa a temperatura e reduz alagamentos. Além disso, a tecnologia, incluíndo aí a inteligência artificial, é fundamental para o monitoramento de todos os eventos extremos climáticos, de toda natureza, no mundo inteiro, em alta resolução espacial e temporal.
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