26 junho 2026 - 22 min de leitura

Ih, olhe lá, é IA?

KPTL

Compartilhe

Ano passado, eu morri, mas esse ano… Bem, melhor deixar para lá, porque não é calendário maia, mas esse 2026 está caprichado. Já teve prisão de mandatário – Nicolás Maduro na Venezuela – há guerra para todos os gostos e estilos – Irã, Ucrânia – e crise, muita crise, especialmente a energética. Sem contar aquela velha pressão inflacionária testando os limites da gastrite de qualquer gestor de portfólio.

Mas calma… Porque habemus Copa do Mundo… E claro: vêm aí as eleições no Brasil.

“A arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê… ”

Mas como dizia, Raul, não, péra, “Os Paralamas do Sucesso”, é dele o refrão acima, que é bonito demais para não ser pintado em parachoque de caminhão.

Agora, o bonito dessa pintura impressionista a la Monet é que já faz um tempo que a cada ano, e a cada eleição, o mundo corre atrás de lidar com a “dor e a doçura” de alguma nova tecnologia digital revolucionária.

Primavera Árabe, lembra dela, my friend? Entrou para a história como a primeira grande onda revolucionária das redes sociais e dos aparelhos celulares. Facebook, Twitter e Youtube viraram armas de disseminação em massa de reivindicações populares em países controlados por governos ditatoriais altamente opressores. Foi bonito, no começo… Até que o caldo desandou… “Eine große Konfusion”, como diria nosso Supremo Gilmar Mendes.

A Primavera Árabe marcou a primeira grande onda revolucionária das redes sociais e dos

aparelhos celulares (Foto: Ahmed Akacha).

Traduzindo: “Uma grande confusão”.

Mas isso é coisa do passado. “A moda agora, é…” Não, não. Esquece o Furacão 2000. Nada de “namorar pelado”, não. É a inteligência artificial generativa.

Estamos na Primavera das Dona Maria e dos Seu Zé da Feira. Sabe quem são? Não? Se não souber, a gente explica. Vem comigo e escuta essa.

Dona Maria era uma senhora idosa e preta, de baixa renda, que surgiu em junho de 2025 e chegou a publicar 400 vídeos no Instagram, com falas indignadas sobre o preço de produtos no supermercado, operações policiais no Rio de Janeiro, o tarifaço de Trump e outros temas quentes no debate político nacional. “Por essa fortuna, o tomate  tinha que se picar sozinho, virar molho à bolonhesa e ainda cantar o hino da Itália”, dizia. Very funny, indeed.

Passou dos 700 mil seguidores e chegou a alcançar mais de 100 milhões de visualizações no Instagram, apenas em abril deste ano – beeeem mais atenção do que muitos políticos tradicionais recebem nas redes sociais.

Até que o compliance da realidade descobriu que Dona Maria não era exatamente Dona Maria, e sim Daniel dos Santos, um motorista de aplicativo da Baixada Fluminense, em busca de uma renda extra e de uma forma de falar de política sem dar a cara à tapa. “Assuntos que geram revolta social, o algoritmo ele entrega, entendeu?”, disse ele a um repórter da BBC. Very smart guy.

“Uma IA na mão e uma ideia na cabeça”, já diria o avatar de Glauber Rocha.

Não demorou para que surgissem na rede adversários políticos de Dona Maria, como o Seu Zé da Feira, um senhor preto, idoso, feirante com sotaque nordestino, e “IAsmina”, uma mulher branca e loira, de sotaque mineiro, atuando na outra ponta do espectro político.

Eleições deste ano serão as primeiras com o uso de IA generativa disseminado.

No final de maio, o Observatório das Eleições, em parceria com os institutos de pesquisa de dados “Data Privacy Brasil” e o “Aláfia Labs”, já havia identificado 18 casos similares ao de Dona Maria, em diferentes plataformas. Todos eles eram influenciadores ”sintéticos”, criados para comentar política. Na maioria dos casos (61%), sem qualquer aviso de se tratar de conteúdo gerado por IA. E em número de casos ainda maior (78%), disseminando desinformação – a saber, alegações enganosas sobre políticos e/ou instituições democráticas.

Com o aumento da visibilidade, claro, “deu ruim”. Já que, pelas novas regras do Superior Tribunal Eleitoral (TSE), é obrigatória a identificação explícita de conteúdos produzidos ou manipulados por IA e das ferramentas usadas no processo. Mas, mesmo com a ampliação recente da regulação, há um risco gigantesco de vir bem mais coisa por aí, como alertam diversos especialistas no tema (veja ao fim da news a entrevista com Alessandra Montini).

E essa é só uma das modalidades de uso da IA que podem impactar as eleições – o termo usado para descrevê-la mais precisamente é Synthfake (sintéticos falsos). Há ainda a produção em massa das clássicas fake news e a produção de vídeos com imagens de políticos ou celebridades reais dizendo coisas que nunca disseram de fato, o deep fake.

Como se vê, o cardápio é vasto.

Com o aumento do número de casos de desinformação, o Superior Tribunal Eleitoral (TSE) lançou novas regras de uso de IA para as próximas eleições.

Mas a coisa anda tão sofisticada, que Hany Farid, o maior especialista mundial em deep fakes há mais de duas décadas, declarou que já não confia nos próprios olhos. Se você está com medo de perder o emprego pra IA, imagine ele…

Farid, que hoje dá aulas na prestigiada Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, disse ao “The New York Times” que sente como se estivesse “ficando cego” e começou a fazer planos de trocar o Vale do Silício por uma fazenda em algum vilarejo pacato de Vermont, conhecido como um dos estados mais rurais dos Estados Unidos. Aquela pivotada básica… E aí, anima também? Partiu trocar Faria Lima por um hotel fazenda em Tuiutí?! Ou Barra do Chapéu?!

Em resumo, chegamos a uma eleição em que criar fake news, synthfakes e deep fakes é cada vez mais barato, fácil e rápido. Detectar é cada vez mais caro, demorado e difícil. Mesmo com a regulamentação evoluindo, o resultado prático não é muito difícil de imaginar…

O outro lado

Mas é claro que novas tecnologias aplicadas ao exercício da cidadania, da democracia e das eleições também têm um lado positivo. E não se trata de algo menor, ou periférico.

O número de prefeituras que oferecem serviços digitais, canais de atendimento por WhatsApp e outras ferramentas de participação social tem crescido no Brasil.

O Brasil hoje tem uma das experiências mais relevantes de governo digital do mundo. O Gov.br, por exemplo, se tornou uma plataforma de escala nacional, com mais de 175 milhões de usuários, milhares de serviços públicos digitais e integração crescente com estados e municípios.

No âmbito municipal, hoje é comum encontrar prefeituras oferecendo serviços digitais, canais de atendimento por WhatsApp, aplicativos, portais do cidadão, ouvidorias digitais e ferramentas de participação social. “Ainda há muita desigualdade entre cidades grandes e pequenas, mas o patamar do debate mudou completamente”, afirma Gustavo Maia, fundador e CEO do Colab, govtech que ajuda governos a ampliar canais de atendimento, organizar demandas da população e tomar decisões com base em mais dados.

As compras públicas representam hoje cerca de 12% do PIB nacional, fazendo do Estado o maior comprador do País. E o mercado de GovTech no Brasil está em franca expansão.

Por conta disso, o Brasil vem se tornando referência em GovTechs e tem condições para se tornar um grande hub internacional de soluções em transformação digital em serviços públicos, afirma Adriano Pitoli, economista e Head do Fundo GovTech da KPTL. “Estamos resolvendo aqui uma série de problemas comuns a muitos outros países no mundo. Temos talentos, empresas inovadoras e um mercado imenso para dar impulso a elas”, afirma.

Nessas eleições, a IA generativa, em particular, vai facilitar a comparação entre os feitos e plataformas de campanha de diferentes candidatos, o que pode ajudar eleitores e eleitoras a escolher os mais alinhados às suas causas e fugir de indicações furadas – em plataformas com bases de dados homologadas pelo TSE, naturalmente. Em paralelo, deve ajudar a baratear, agilizar, personalizar e tornar mais efetivas as campanhas políticas regulares.

Reputação nas buscas por IA

Startup especializada em monitoramento de mídia, redes sociais e gestão de reputação com inteligência de dados, a Knewin, por exemplo, está lançando um novo serviço, que automatiza a análise da imagem de candidatos (e também de empresas) apresentada aos usuários de grandes modelos de linguagem (LLMs), de acordo com os mais diferentes perfis de eleitores (ou potenciais clientes, no caso de análises feitas para marcas).

A solução desenvolvida permite aos clientes desenhar uma “persona” específica — como um eleitor de centro, por exemplo — e associar a ela uma matriz de interesses e demandas socioeconômicas, em relação a determinado candidato (ou marca, no caso de empresas). A partir desse cruzamento, a ferramenta da Knewin submete uma série de perguntas às plataformas de IA generativa disponíveis no mercado, como ChatGPT, Claude, Vitus e Opus. Em seguida, monta um diagnóstico baseado na imagem que cada IA apresenta do candidato nas respostas para aquele perfil de eleitor, bem como a imagem de seus concorrentes.

Eficiência e transparência

Bem mais consolidadas são soluções tecnológicas que contribuem para a eficiência, a transparência e a agilidade de processos de compras públicas, ou que preenchem a lacuna de comunicação e gestão da comunicação entre o poder público e a população. Apesar disso, há muito espaço para que cresçam no mercado brasileiro com as eleições deste ano.

O Colab, por exemplo, está indo para o quarto ciclo de eleições nacionais e estaduais desde a fundação, em 2013, com a expectativa de repetir o desempenho positivo de outros anos eleitorais. “Nosso crescimento não depende de eleição”, afirma Gustavo Maia, fundador e CEO da empresa. A alavanca é estrutural, explica.

Governos precisam cada vez mais se modernizar e usar dados de forma inteligente e melhorar a experiência do cidadão, demanda que não começa nem termina com a eleição. “Mas as eleições ampliam o debate sobre a capacidade de entrega do Estado, eficiência da gestão pública e qualidade da relação entre governo e cidadão. E esses temas estão diretamente conectados ao que o Colab faz”, afirma Maia.

Por isso, conta, anos de eleição para presidente, governadores e deputados tendem a ser positivos para a empresa. “Os principais clientes da Colab são as prefeituras, e a agenda municipal de transformação digital, atendimento ao cidadão, participação social e melhoria dos serviços públicos avança independentemente do calendário eleitoral nacional”, diz.

Em 2026, em particular, o empresário diz que ajuda o fato da tecnologia estar muito mais no centro do debate público do que em eleições passadas, quando a discussão sobre governo digital ainda era muito associada à ideia de colocar serviços na internet, criar aplicativos ou digitalizar formulários. “Agora, o debate ficou mais sofisticado. Inteligência artificial, dados, automação, infraestrutura digital, capacidade de entrega e redução de burocracia passaram a fazer parte da agenda de governo de forma muito mais intensa”, afirma.

Inteligência artificial, dados, automação e infraestrutura digital hoje fazem parte da agenda do poder

público de forma muito mais intensa.

A tecnologia deixou de ser um tema lateral e passou a ser parte central da discussão sobre capacidade de governo. Segundo Maia, um dos assuntos mais quentes no Colab têm sido a transição de um Estado reativo, que espera o cidadão pedir, preencher formulários e abrir protocolos, para um Estado mais proativo e antecipatório, capaz de reconhecer eventos da vida das pessoas e agir no momento certo, com responsabilidade, transparência e proteção de direitos. A tendência pode ser traduzida em um conceito que o empresário define como “Zero-Click Government” , tema que transformou em livro, lançado recentemente.

“A ideia não é simplesmente usar tecnologia para acelerar a burocracia existente, mas repensar como governos podem entregar serviços públicos de forma mais inteligente, integrada e centrada no cidadão”, afirma o empresário. “Para governos estaduais e Governo Federal, o Colab Zero-Click terá grande impacto a partir do próximo ano”.

Para este ano, a expectativa da empresa, que hoje atende dezenas de governos – principalmente prefeituras – e impacta milhões de pessoas, é de crescimento de 60% a 100% na receita recorrente anual. Até o momento, segundo Maia, a empresa já está em 45%.

Abastecimento garantido

Outra frente em que o uso de novas tecnologias têm sido intensificado é a de compras públicas, que em anos eleitorais, como o atual, tem o calendário adaptado para que a máquina continue girando, até que saia a decisão das urnas. “Nos meses que antecedem as restrições eleitorais mais severas – especialmente os 180 dias anteriores ao fim do mandato, conforme determina a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) -, há uma aceleração natural na abertura de processos licitatórios. Os gestores públicos buscam garantir o abastecimento e a continuidade dos serviços antes que as vedações entrem em vigor”, afirma Ladeira, do Portal de Compras Públicas, dono de uma plataforma de licitações que conecta mais de 4 mil entes públicos a mais de 634 mil fornecedores, processando mais de 300 certames diários.

Com isso, de um lado, há intensificação das compras no primeiro semestre. De outro, muitos gestores públicos, que ainda não haviam adotado plataformas digitais, veem na eleição uma oportunidade de demonstrar modernidade, eficiência e transparência, e passam a adotá-las. “Os gestores públicos sabem que serão avaliados não apenas pelos resultados, mas pela qualidade dos processos. Uma plataforma como a nossa, que oferece rastreabilidade completa e compliance automático, é exatamente o que precisam”, diz Ladeira.

A área de compras públicas é outra frente em que uso de novas tecnologias têm sido usado para aumentar a eficiência e a transparência.

Como pano de fundo, há ainda outros catalisadores de negócios, que tornam a eleição atual diferente das anteriores. Um dos mais importantes, avalia ele, é a consolidação definitiva da Nova Lei de Licitações (Lei no 14.133/2021) e a crescente adoção de critérios de sustentabilidade e inovação nas compras públicas. “Diferente dos ciclos eleitorais passados, onde a transição de legislações – da antiga Lei 8.666/93 para a nova – ainda gerava incertezas, hoje operamos em um ambiente regulatório mais maduro e estável”, diz.

Segundo Ladeira, a obrigatoriedade do uso do Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), ao qual o Portal é integrado, elevou o sarrafo da transparência. “Não há mais espaço para ambiguidades ou processos opacos, o que é particularmente relevante em um ano eleitoral, quando o escrutínio público é intenso”, diz. “A demanda por soluções seguras e eficientes atingiu um patamar inédito. Estamos não apenas facilitando transações, mas garantindo que cada processo seja blindado contra riscos de improbidade administrativa”.

Novos gestores, que assumirão em 2027, já começam a se familiarizar com nossas ferramentas, criando uma base de usuários mais ampla e engajada, afirma Ladeira. “Estamos vendo um crescimento acelerado no número de entes públicos cadastrados, na quantidade de fornecedores participando de licitações através do Portal, e no volume de recursos movimentados”, diz. Por isso, para este ano, a empresa projeta uma expansão robusta, tanto no volume de transações quanto na adesão de novos municípios e fornecedores.

“O ciclo eleitoral funciona como um catalisador para a digitalização do Estado”, diz Ladeira.

Novo ciclo

Para o bem ou para o mal, a tecnologia elevou o sarrafo do jogo. O setor público corre para atualizar seu software de gestão, enquanto o processo eleitoral tenta mitigar os riscos de imagem causados por avatares hiper-realistas.

Até dia 4 de outubro, quando os brasileiros e brasileiras elegerão 513 deputados federais, 1035 deputados estaduais e outros 24 distritais, 54 senadores, 27 governadores e um  presidente da república, é torcer para que o eleitor consiga separar o sinal do ruído. E o TSE garanta que falsas Donas Marias e Zés da Feira sintéticos não estraguem a festa da Democracia.

Porque, como já dizia Cazuza…

🎶 O tempo não para! 🎶

“A liberdade de opinião é uma farsa, a menos que as informações factuais sejam garantidas e os fatos em si não estejam em disputa”

Hannah Arendt

3 perguntas para…

Alessandra Montini

Diretora do Laddata-FIA, consultora em Big Data e Inteligência Artificial, professora na FEA-USP, membro do Conselho Curador da FIA e palestrante. Bacharel e mestre em estatística pelo Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP), tem doutorado em administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA). Coordena o Grupo de Pesquisa do CNPQ: Núcleo de Estudo de Modelos Econométricos e Núcleo de Estudo de Big Data. É parecerista do CNPQ e da Fapesp.

Alessandra Montini. (Foto: Divulgação)

1) Esta será a primeira eleição presidencial no Brasil com o uso disseminado de IA generativa. Qual será o peso da nova tecnologia na disputa?

A IA generativa vem com tudo criando o possível e o impossível. Toda tecnologia tem o lado positivo e o lado negativo. O lado positivo é a grande capacidade de construção de conteúdo: vídeo, áudio, textos, peças publicitárias, material para o Instagram e o Facebook. E praticamente em tempo real, com custo bem reduzido. Além disso, a IA pode criar peças específicas para bairros, cidades, estados ou regiões, de acordo com as necessidades de cada um. Cria milhões de conteúdo e já joga na rede. Para quem vai votar, ela torna mais fácil comparar os feitos e ações dos candidatos. É só indicar os nomes, que a IA faz a comparação. Por outro lado, entre os pontos negativos, se eu fizer essa mesma pesquisa sobre os candidatos em uma plataforma não homologada pelo TSE, existe a possibilidade de a IA alucinar e inventar sobre a trajetória do candidato. Mas o principal ponto negativo é a disseminação de fake news. A IA faz fake news escrita e o deep fake, o clone perfeito, que está a cada dia mais perfeito. Ela coloca um candidato falando uma barbaridade, ou outro mentindo com “cara de pastel”. Ou um jogador de futebol, um cantor, alguém importante falando alguma coisa completamente mentirosa sobre um candidato. Está muito mais fácil enganar as pessoas. Eu fiz outro dia um vídeo de eu conversando com a IA, como se fosse eu conversando comigo mesma. Uma de preto, uma de branco. E pedi para minha família dizer quem era a pessoa real. Não conseguiram perceber, porque está cada vez mais sofisticado.

2) Em março, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou novas regras sobre o uso da IA na propaganda eleitoral. Serão suficientes para evitar abusos?

As novas regras têm pontos muito importantes. Entre as proibições está, por exemplo, o uso de deep fakes. Também passou a ser obrigatória a identificação de qualquer conteúdo honesto, o chamado fair play, produzido ou alterado por IA. Tem que por um logozinho lá. Outros avanços são a responsabilização de candidatos e plataformas que descumprirem as normas e a proibição de que a inteligência artificial faça recomendações de candidatos ou interfira de forma algorítmica. Ela pode apresentar atributos e o que a pessoa falou, mas recomendar, não. Mas proibir é uma coisa. Da mesma forma que é proibido assaltar e matar, o grande desafio regulatório é operacional. Como identificar em tempo real, 24 horas por dia, com rapidez, tudo o que foi feito de errado com fake news e inteligência artificial para tirar do ar? E remover rápido, porque uma vez que você jogou o conteúdo no vento, já foi. Quando um vídeo cai no WhatsApp, a mãe manda para o filho, que manda para o sobrinho, que joga no grupo da família. Até que seja retirado do ar, o dano é quase irreparável. Como fazer para voltar todo o caminho que o vídeo percorreu avisando que aquilo era falso? Muitos candidatos gostam de usar esse tipo de recurso faltando dois dias, um dia ou poucas horas para o pleito. No passado, no mundo analógico, guardava-se aquele segredo para o último minuto do último debate. Imagine agora milhares de robôs, que podem nem estar no Brasil, invadindo as redes e soltando informações. Dependendo do caso, estamos falando da indústria do crime, não de amadores. Não é alguém com um ou dois perfis fora do País. É gente que gerencia 10 mil perfis. Se você derruba mil, sobram outros 9 mil. A lei existe. Localizar, autuar e punir, no entanto, é o mais difícil. Pode não dar tempo. Teremos problemas gravíssimos, mas temos que tentar mitigar.

3) Como vê a regulamentação brasileira de uso de IA nas eleições em relação ao que já está sendo feito no resto do mundo?

Tudo tem limitação. No Brasil, a proibição de deep fakes, a identificação de conteúdo gerado por IA e o poder regulatório do TSE, com sanções rápidas ao longo do período eleitoral, são pontos fortes. Mas monitorar e rastrear milhões de conteúdos é muito complicado. Na União Europeia, o foco está em dar transparência aos conteúdos sintéticos e na responsabilização das plataformas digitais. Se houver algo errado, a plataforma responde pelo que divulgou, o que é muito positivo. Eles também realizam uma avaliação de riscos nos processos democráticos e controlam a publicidade política on-line, mas fazem isso durante o ano inteiro, e não apenas no período eleitoral como acontece no Brasil. Nos Estados Unidos, a dinâmica é um pouco diferente porque não existe uma lei federal. Cada estado tem a sua própria legislação e os seus acordos. Alguns aprovaram regras específicas para deep fakes eleitorais, outros ainda estão pensando no que fazer. Além disso, grande parte da regulamentação norte-americana depende das próprias plataformas, que travam muito do que está acontecendo. Isso torna o ambiente regulatório deles mais heterogêneo do que o brasileiro. O que funciona em uma região pode não funcionar em outra. Já na China, tudo é sempre mais severo. Eles possuem o modelo mais rígido do mundo, com uma preocupação bem menor em equilibrar a liberdade de expressão e o controle. Lá, a rotulagem de conteúdo sintético é obrigatória, e exige-se o registro e a rastreabilidade total dos sistemas de IA. Sabe-se exatamente quem fez o que, e a que horas, por causa do forte controle governamental sobre as empresas de tecnologia. Você respirou ou andou, eles sabem. É muito complicado disseminar fake news por lá. Mas aí surge o problema inverso, que é o grau de liberdade de expressão. Se o governo sabe tudo o que está acontecendo em tempo real, será que o cidadão vai ter a coragem de falar o que pensa? Porque qualquer manifestação pode ser pega de imediato.

Notícias relacionadas

Assine nossa newsletter

Receba insights exclusivos, tendências de mercado e atualizações sobre investimentos.