“O Brasil, é o país, do futuro”
O verso da música “1965 (Duas Tribos)”, da banda Legião Urbana de Brasília (DF), é do rock brazuca dos anos 80 do século passado. Mas olha que novidade: permanece atual.
Contudo, sejamos francos: ninguém costuma se dar mal ou passar vergonha por desconfiar do ufanismo brasileiro, né? Os casos são inúmeros e os desfechos invariavelmente se resumem ao sentimento de que deixamos passar mais uma oportunidade.
Mas, de vez em nunca, bemmmm de vez em quando, o País se move em direções que permitem acreditar que o copo está mais ou menos cheio, em vez de meio vazio. Aí, vem o frescor de uma canção de Lulu Santos, em “Tempos Modernos”, diferente do song de Renato Russo…
“Eu vejo a vida melhor no futuro, eu vejo isso por cima do muro “
Agora, se está Russo ou não, o fato é que na safra atual, não dá pra desprezar notícia boa. E na Faria Lima, ninguém ignora impunemente oportunidades de ganhar dinheiro. Nope!
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O Brasil – anote bem – pode estar prestes a viver uma revolução na capacidade de transformar a ciência de ponta em ciência aplicada. Isso porque, depois de décadas de investimentos públicos em formação de pessoal e pesquisa básica, e de uma série de avanços regulatórios recentes, surgem no País iniciativas para eliminar uma das principais barreiras do setor, a falta de linhas de financiamento adequadas ao grau de risco envolvido em projetos deep tech.
Como assim? Acalmai-vos, que nós vamos lhe guiar.
Antes, porém, contudo, todavia, uma passada pelo track record para contextualizar.
Historicamente, o Brasil tem sido capaz de produzir ciência de ponta, inovação e startups relevantes. Temos fintechs, empresas de delivery, desenvolvedoras de jogos e proptechs de aluguel e venda de imóveis, por exemplo, que valem dezenas de bilhões de dólares. Mas trata-se de inovações feitas principalmente em modelo de negócio e/ou tecnologias digitais. Software, basicamente. Testar um novo produto, no caso, não demanda investimentos vultuosos – pelo contrário, basta um computador, dois devs, um tanto de energético e pizzas frias e voilà, a mágica acontece.
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Das startups digitais às tecnologias de base científica, o jogo muda de escala.
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Só que na hora de transformar pesquisa científica em produtos inovadores, sem similares no mercado, que inauguram novas categorias e exigem investimentos milionários em fábricas, a coisa muda de figura. Iniciativas como FINEP e Embrapii apoiam a inovação até certo estágio, mas têm limitações na hora do escalonamento. A conta, portanto, para tirar a pesquisa da bancada e colocar na esteira de produção para ir ao mercado, não fecha com poucos “dinheiros”.
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Considerando os riscos envolvidos, de fato, é muito recurso para instituições de crédito tradicionais e mesmo para Private Equity, explica Danilo Zelinski, Head de Sustentabilidade da KPTL, principal investidora em deep techs do Brasil, com um histórico de aportes em 55 iniciativas dessa natureza e 88 startups nascidas em Centros de Tecnologia, universidades e hubs de inovação profunda.
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Danilo Zelinski, Head de Sustentabilidade da KPTL. (Foto: Gil Silva / Kyvo)
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O roteiro, segundo o gestor de fundos de Venture Capital, é clássico: após uma década de pesquisa exaustiva e uma tecnologia validada, o empreendedor descobre que precisa de R$ 150 milhões para erguer sua primeira unidade fabril e entregar “calor verde” para a indústria pesada. “A gente vê muita coisa interessante por aí. Mas tenho que dizer para o empreendedor que não consigo investir. É o tipo de risco que tomamos, mas não o tamanho do cheque que fazemos. É muito alto”, completa Zelinski.
“Nossas estruturas não estão preparadas para setores em que o ciclo de desenvolvimento é longo”, diz Jefferson de Oliveira Gomes, diretor de desenvolvimento industrial, da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
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“Você tem risco tecnológico e de mercado, com ciclos muito grandes. Na área da saúde, por exemplo, o ciclo é de oito anos. O desenvolvimento de um produto pode levar um ano e meio, a esteira regulatória para sua aprovação final pode chegar a oito anos”, detalha com uma sobriedade ímpar.
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Jefferson de Oliveira Gomes, diretor de desenvolvimento industrial da CNI. (Foto: Divulgação)
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O empreendedor, por outro lado, não encontra financiamento e o projeto fica pelo caminho.
Segundo estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), chamado “Deep Tech, a nova onda”, o Brasil tem 77% dos pesquisadores, 58% das patentes e 47% das contribuições em artigos acadêmicos da América Latina. Mas apenas 33% das deep techs da região. E um dos principais motivos para isso é a escassez de investidores dispostos a encarar o risco. “Acaba sendo um mercado não atendido”, afirma Zelinski, da KPTL.
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É justamente nesse enganche para construir pontes financeiras entre os picos desse “vale da morte”, com recursos complementares aos de agências de fomento como a FAPESP, que novas iniciativas estão surgindo. A mais impactante delas é, sem dúvida, o 5º leilão do Eco Invest, programa criado pelo Ministério da Fazenda para canalizar capital privado na direção de projetos ligados à transição sustentável para uma economia de baixo carbono. Mas há outras, de relevância, como a Incubadora de Descarbonização Industrial (ID Incubator), resultado de parceria entre o Brasil e o Reino Unido, para acelerar o desenvolvimento de tecnologias limpas voltadas à descarbonização industrial de setores como aço, alumínio, vidro, cimento, petroquímica e papel e celulose, considerados grandes emissores de CO2 na atmosfera.
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Novas iniciativas estão surgindo para complementar os recursos aportados por agências de fomento, como a FAPESP. (Foto: Herton Escobar/ GCOM FAPESP)
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Só com o Eco Invest 5, a expectativa é de aportes superiores a R$ 50 bilhões — B-I-L-H-Õ-E-S –, dentro de uma proposta que combina capital público e privado. Ou blended finance, if you wish, my dear friend — como manda a etiqueta da Faria Lima. “O capital público deve funcionar como catalisador; o capital privado proporciona escala”, afirma Mario Augusto Gouvea de Almeida, membro do comitê executivo do Eco Invest 5, que lidera o projeto no Tesouro Nacional (veja mais na seção Três perguntas para…, ao final desta edição).
No caso do Eco Invest 5, para cada real colocado pelo poder público, os bancos parceiros na iniciativa deverão se comprometer a captar com investidores privados de um a dois reais, como contrapartida. “O sucesso do Eco Invest será medido por sua capacidade de utilizar cada real público para destravar múltiplos reais de investimento privado e transformar vantagens brasileiras em tecnologia, empresas e novas cadeias produtivas”, diz Almeida.
Criado em 2024, o Eco Invest já mobilizou mais de R$ 140 bilhões desde sua primeira edição. De lá para cá, as edições tiveram foco em iniciativas como regeneração de áreas degradadas (Eco Invest 2) e projetos de turismo na Amazônia (Eco Invest 4), entre outras frentes. A quinta edição, porém, será a primeira voltada à inovação e Venture Capital e, mais especificamente, a deep techs. Isso significa que parte significativa do dinheiro será investida em startups criadas a partir de inovações de base científica, altamente inovadoras.
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Edições anteriores do Eco Invest focaram em iniciativas como a regeneração de áreas rurais degradadas (Eco Invest 2).
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Para isso, serão criados seis fundos de investimento em Venture Capital, cada um dedicado a uma vertical voltada a impulsionar um setor estratégico para a o desenvolvimento da economia de baixo carbono no Brasil: circularidade de resíduos minerais e industriais, fertilizantes verdes, química verde, combustíveis verdes avançados, sistemas de baterias e beneficiamento de minerais críticos e automação e inteligência artificial aplicada à indústria. A lógica adjacente é simples. A agenda climática depende de inovação. Ou o mundo inova, em várias frentes, ou vai cozinhar. E a inovação mais disruptiva é feita por deep techs.
Para dar conta de atender startups em diferentes estágios de prontidão tecnológica (TRLs), o Tesouro Nacional desenhou ainda mais dois mecanismos. Um é a destinação de parte dos recursos para universidades e centros de pesquisa. Outro é o financiamento de plantas industriais, para escalar a produção. “Para transpor as barreiras do laboratório e viabilizar a produção de metanol, por exemplo, um aporte de R$ 5 milhões é insuficiente. Estamos falando de investimentos que alcançam dezenas ou centenas de milhões de reais para que uma tecnologia se torne comercializável”, afirma Zelinski, da KPTL. “Para esse tipo de inovação, vai ser uma revolução, porque esse tipo de capital não está disponível. É dinheiro que será ‘empilhado’ sobre outros recursos de fomento existentes, que têm baixa conversão de pesquisa em negócio. E aqui você vai ter o capital e o mindset de capital para mudar isso”.
Além de bancar a transformação de ciência desenvolvida no Brasil em deep techs, outra novidade do Eco Invest 5 é a possibilidade de investir em startups estrangeiras, desde que o objetivo não seja simplesmente importar uma solução pronta, mas atrair propriedade intelectual, equipes, atividades de pesquisa e capacidade industrial, combinando tecnologia internacional com universidades, ICTs, empresas e cadeias produtivas brasileiras.
“Não é pra gente investir na startup do Japão que está fazendo coisas no Japão”, diz Zelinski. “É para que pesquisas do Japão sobre metanol verde, por exemplo, que têm matéria-prima aqui com preço muito mais competitivo, possam vir para o Brasil. Agora, teremos condições locais e capital para fazer esse tipo de projeto acontecer também”, complementa.
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Da COP ao mercado: transformar compromisso climático em tecnologia.
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Para além do Eco Invest 5, o Brasil também poderá contar, nos próximos anos, com recursos da Incubadora de Descarbonização Industrial (IDI), e de fundos complementares. Lançada em dezembro do ano passado, a iniciativa é um dos pilares de um projeto estratégico mais amplo, o Hub de Descarbonização Industrial (ID Hub) – plataforma bilateral entre o Brasil e o Reino Unido, criada na COP28 –, e deverá apoiar 20 startups, em rodadas seed e série A, com investimento inicial de cerca de R$ 8 milhões, financiado pelo governo britânico.
“Até o momento, o programa vem realizando um extenso trabalho de avaliação em setores prioritários e se engajando com líderes industriais, associações setoriais, investidores e instituições financeiras”, afirma Richard Halsey, diretor na Energy Systems Catapult, do Reino Unido, um centro independente de pesquisa e tecnologia que está auxiliando na execução da incubadora. “A identificação de desafios e o engajamento com a indústria já destacaram um número de potenciais parceiros industriais nos setores-alvo”, afirma.
Segundo Halsey, as próximas etapas envolvem a definição de desafios industriais específicos, o lançamento de chamadas de inovação, a identificação de tecnologias de alto potencial do Brasil, do Reino Unido e internacionais, e a conexão de inovadores com parceiros industriais para o desenvolvimento de projetos-piloto. “A ambição de longo prazo é estabelecer projetos de demonstração que possam comprovar a viabilidade comercial e criar caminhos atrativos para investimentos em direção à implantação em grande escala”, diz.
Por ora, a parceria entre os dois países já têm como externalidade positiva a criação de um fundo de descarbonização pela KPTL, que ao lado de outras organizações, como CINK Group, ABGI, Neo Ventures, esteve envolvida na construção do ID Hub. Principalmente no desenvolvimento de mecanismos financeiros. “Aproveitamos esse conhecimento no novo fundo. E a incubadora poderá aproveitar o nosso fundo para dar vida ao seu pipeline”, afirma Zelinski, da KPTL. “É bem simbiótico”. A meta é captar de R$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhão.
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Para que as expectativas em relação ao Eco Invest 5 se tornem realidade, ainda será preciso levantar o dinheiro privado para complementar os recursos públicos, o que Zelinski avalia que pode ser desafiador, com a taxa básica de juros no patamar atual no Brasil (14% a.a.). Encontrar bons projetos para absorver o volume de recurso captado, não é trabalho para neófitos. Mas a boa notícia é que o contexto atual é favorável, tanto no que diz respeito ao ecossistema brasileiro de inovação, quanto ao mercado e à geopolítica.
Como lembra Gomes, da CNI, nos últimos 15 anos, o Brasil construiu um conjunto de ferramentas que viabiliza novos projetos de inovação, sejam eles oriundos de startups ou de spin-offs. Hoje, o País tem um arcabouço regulatório robusto, que abrange desde incentivos e renúncias fiscais até modalidades de crédito reembolsável e não reembolsável.
Houve também avanços importantes, como a Lei do Bem, a criação da Embrapii e, a partir dela, a própria modernização da Finep, avalia. Em paralelo, o BNDES passou a atuar de forma mais incisiva na agenda de inovação. Some-se a isso ainda o Marco Legal da Inovação, o Marco Legal das Startups e a Lei das Estatais (Lei nº 13.303/16).
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Em anos recentes, o BNDES, banco brasileiro de desenvolvimento, passou a atuar de
forma mais incisiva na agenda de inovação.
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“Estamos em um processo contínuo”, diz Gomes. “Todo esse aparato permitiu o avanço da inovação em camadas adjacentes e na pesquisa aplicada com potencial de virar produto. Embora com aportes financeiros ainda tímidos se comparados ao cenário global, esse ambiente viabilizou o surgimento de novas empresas”.
Hoje, o País tem ao menos 101 startups construídas a partir de descobertas científicas de impacto, ou de projetos de engenharia complexa. Juntas, elas captaram US$ 441 milhões e valem US$ 1,9 bilhão, segundo o estudo Deep Tech, a nova onda, do BID, já citado aqui.
Entre elas, há nomes como Magnamed, Lamiecco, Akymey, Bug, Agrotools, Nanoscoping, SVA Tech, RPH, Yak e Instor, que estão ou estiveram no portfólio de gestoras que cresceram apostando no segmento, como a KPTL. “A KPTL flerta com a realidade das deep techs desde o início, há 22 anos. Hoje, depois de mais de 140 investimentos, temos um relacionamento próximo com diversas universidades e centros de pesquisa, além de um histórico com 55 deep techs, a maioria com inovações B2B e afinidade com áreas estratégicas para o país”, diz Zelinski.
Um exemplo dos investimentos feitos pela KPTL no passado é o da Lamiecco. Em 2013, por se tratar de uma operação industrial, a gestora fez um aporte atípico na empresa, de R$ 9 milhões. Neste ano, a participação foi vendida por R$ 42 milhões. “Se tivéssemos a possibilidade de cheques maiores naquele momento, a escala e o ritmo de expansão teriam sido outros. Agora, finalmente, os instrumentos financeiros estão se alinhando à necessidade de fôlego dessas tecnologias de base científica, muito inovadoras”, diz o gestor.
No que diz respeito à captação de capital privado paciente, para complementar o que será colocado pelo governo, na avaliação de Gomes, da CNI, pesa a favor do Brasil o fato de ter pesquisa de ponta em áreas como ferramentas de IA e genética, e de o capital de deep techs ser global, pelo alcance dos avanços na área. “Se tem uma coisa que o mundo procura para deep tech é a capacidade de fazer acontecer”, afirma Gomes. “O Brasil tem essas pessoas, e o Eco Invest 5 vai servir muito bem para divulgar e acelerar os projetos brasileiros”.
Zelinski e Halsey citam também a disponibilidade de energias limpas e baratas no Brasil, a diversidade de indústrias-chave para a pesquisa (aço, papel e celulose, química, cimento, mineração, vidro e alumínio, entre outras) e o acesso a matérias-primas e resíduos industriais em abundância, para testar novas soluções de descarbonização.
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É na escala industrial que a inovação deixa o laboratório e ganha o mundo.
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E há ainda a “mágica” da engenharia financeira do Eco Invest 5, que praticamente garante aos investidores privados um piso de rentabilidade de IPCA mais 1% ao ano, transformando o risco de venture capital em algo próximo de uma renda fixa com um upside agressivo. “Essa estrutura ‘sexy’ abre portas para fundos de pensão, que buscam bater metas de inflação mais 5%, e para seguradoras. Até os Corporate Venture Capitals (CVCs) podem ver vantagem em alocar recursos subsidiados em fundos que unem retorno estratégico a uma proteção de capital inédita”, diz Zelinski.
“A transição não é mais vista unicamente como uma imperatividade ambiental. Em todo o mundo, governos e empresas estão procurando parceiros capazes de produzir materiais de baixo carbono, combustíveis de baixo carbono e produtos industriais limpos”, diz Halsey. “Isso cria oportunidades significativas para o Brasil se tornar um consumidor e exportador global não apenas de energia de baixo carbono e produtos associados, mas também de conhecimento prático, modelos de negócios e tecnologias de descarbonização industrial”.
Antes, faltava cheque. Agora, é encontrar as melhores oportunidades para aplicá-lo, sem queimar cartucho em projeto com cara de “PowerPoint perfumado”.
Certamente, será mais divertido (e rentável).
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“Todo grande progresso da ciência resultou de uma nova audácia da imaginação.”
John Dewey, filósofo e pedagogo norte-americano
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Mario Augusto Gouvea de Almeida
É economista formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com mestrado em desenvolvimento econômico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e PhD em economia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Tem uma carreira de mais de duas décadas dedicada ao setor público. Ocupa atualmente a presidência do Conselho de Supervisão do Regime de Recuperação Fiscal do Ministério da Fazenda e é auditor-fiscal do Tesouro Nacional, onde lidera o Eco Invest 5, como membro do Comitê Executivo.
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Mario Augusto Gouvea de Almeida. (Foto: Divulgação)
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1) O 5° leilão do Eco Invest coloca investimentos em inovação tecnológica no centro da agenda. Qual é o principal problema que o governo busca resolver com essa nova rodada?
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Muitos projetos de inovação deixam de receber investimentos não por falta de potencial, mas porque a relação entre risco e retorno não se enquadra nos mandatos dos investidores. O Eco Invest utiliza o recurso público de forma catalítica para reduzir o risco percebido e destravar um volume muito maior de capital privado. Os Fundos de Inovação materializam essa lógica. O capital catalítico forma um colchão de liquidez destinado a absorver parte do risco de desempenho da carteira. Essa estrutura busca oferecer ao investidor privado um piso de rentabilidade referenciado em IPCA mais 1% ao ano, ao mesmo tempo que permite sua participação no potencial de valorização das empresas e tecnologias. Cria-se, portanto, uma relação risco-retorno mais compatível com o mercado de venture capital. Se a carteira apresentar resultados superiores aos esperados, o desenho também permite que parte dos ganhos excedentes seja compartilhada com o Tesouro Nacional. Além dos Fundos de Inovação, o leilão combina crédito corporativo e fomento à pesquisa aplicada e ao empreendedorismo de base tecnológica. Com isso, procura atuar nas diferentes etapas da jornada, desde a aproximação entre universidades e empresas até a validação, o escalonamento e a entrada das tecnologias no mercado.
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2) Na visão do Tesouro Nacional, qual a importância de fundos de VC e investidores com experiência em inovação para a capacidade do Brasil de transformar ciência, tecnologia e inovação em empresas competitivas e novas cadeias produtivas?
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O desenho do Eco Invest 5 parte da complementaridade entre instituições financeiras e gestores de venture capital. Nesse contexto, o papel dos fundos de venture capital vai muito além do aporte financeiro. Avaliar projetos e empresas de base tecnológica em estágios iniciais exige capacidade de compreender a tecnologia, a qualidade da equipe, o mercado potencial e as diferentes trajetórias possíveis de crescimento. Gestores experientes conseguem estruturar o investimento por etapas, estabelecer marcos de desenvolvimento, diversificar riscos e reservar recursos para acompanhar as empresas que apresentarem melhor desempenho. Também podem contribuir para a formação da equipe, o aprimoramento da governança, a estratégia de propriedade intelectual, a aproximação com parceiros industriais, a conquista dos primeiros clientes e o acesso a novas rodadas de capital. Essa função é especialmente importante no Brasil porque uma das principais lacunas está na transformação da pesquisa em empreendimento. O pesquisador pode dominar a tecnologia, mas não necessariamente possui experiência para construir uma empresa. Na outra ponta, empresas conhecem seus mercados e desafios produtivos, mas frequentemente têm pouca conexão com universidades e centros de pesquisa.
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3) Equacionada a escassez de capital, quais serão os principais desafios para viabilizar deep techs e acelerar a chegada de novas tecnologias ao mercado?
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O principal desafio será a formação de um pipeline relevante de projetos nas seis cadeias elegíveis. Os recursos só produzirão os resultados esperados se encontrarem empresas e projetos com qualidade tecnológica, potencial de mercado e capacidade de execução. As grandes empresas e seus fundos de corporate venture capital, os CVCs, podem exercer papel central na construção desse pipeline. Elas conhecem os gargalos tecnológicos de suas cadeias, possuem capacidade industrial e podem transformar problemas concretos em teses de investimento. Além do capital, podem oferecer instalações para testes, plantas-piloto, conhecimento de mercado, canais de distribuição e, sobretudo, os primeiros clientes para as novas tecnologias. A participação dos CVCs ajuda a conectar universidades, startups e gestores de venture capital às demandas reais da indústria. Também será necessário um olhar sistemático para fora do país. O leilão permite que parte dos recursos seja destinada à aquisição de empresas de base tecnológica no exterior, desde que isso resulte na internalização de conhecimento, pesquisa, tecnologia ou capacidade produtiva no país. Uma vez formado esse pipeline, permanecem os desafios de validação, escalonamento, certificação, formação de equipes e entrada no mercado.
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